Sei que venho produzindo uma “overdose” de crônicas em torno do conceito e da prática de “aula”, mas direi que nunca será demais reagir perante a insanidade de manter essa aberração pedagógica como dispositivo central de um obsoleto modelo de escola. Por que não questionar a aula? É tabú?

Como escrevi numa nota, o professor auleiro (neologismo criado pelo meu amigo Pedro Demo) não ensina aquilo que diz; o professor transmite aquilo que é. O professor auleiro contribui para a reprodução e perenização de uma cultura pessoal e profissional feita de solidão e heteronomia.

Este arrazoado decorre de ter escutado um auleiro dizer que “ensina pelo método fônico” e que nas suas aulas, “quem aprende, aprende, quem não aprende vai para reforço”. O auleiro ensinava “do modo que antes se ensinava, do mesmo modo que foi ensinado” (sic): todo mundo ao mesmo tempo, o tempo de uma aula.

Sozinho, o docente estabelecia o “ritmo da aula”, em detrimento do ritmo de cada aluno. Ao cabo de alguns meses, sugeria, que os alunos que não acompanhavam o “ritmo da aula”, recebessem aulas de “recuperação”. O esforçado auleiro não sabia, mas ignorava os estilos de inteligência de cada aluno e desprezava o repertório linguístico de cada criança.

Em levantamentos de repertório linguístico efetuados em várias escolas brasileiras, identificamos crianças que reconheciam (globalmente) mais de cem palavras, como… Coca-Cola. Porém, na escola, não liam a palavra. Decoravam letras e balbuciavam sílabas: ca, ce, ci, co, cu, la, le, li, lo, lu…

Eram assim as aulas fônicas. Professor sozinho, na sua sala de aula, no frontal anônimo de aula igual para todos, ignorando que cada aluno apela a diferentes estilos de inteligência e tem ritmo de aprendizagem próprio, que difere dos restantes. Cada ser humano aprende a ler numa diversidade de metodologias – há métodos de base silábica, os analítico-sintéticos, os globais de palavras, contos, ou de frases, há abordagens fonomímicas e fotossintéticas – mas o método fônico continua sendo quase hegemônico. E, entre o fônico e a aula, prospera o analfabetismo.

Enquanto Gadotti afirma que a pedagogia tradicional, centrada sobretudo na escola e no professor, não consegue dar conta de uma realidade dominada pela globalização das comunicações, da cultura e da própria educação, continuamos a enfeitar o obsoleto modelo de ensino com aulas de apoio, de reforço, de “bem-estar”, ou de ética; com rankings, jogos, olimpíadas, “qualidade total”, cursos de “planejamento de aula”, a vender “cursos de metodologias ativas na sala de aula” (como se isso fosse possível…) e até “capacitações para dar aulas com alegria” (sic).

Seis décadas atrás, o meu professor ordenou que, de memória, eu recitasse um poema, que se incrustou na memória de longo prazo. Termina assim: Que os adultos, Senhor, / Sofram tormentos sem fim. / Mas as crianças, Senhor, / Por que lhes dais tanta dor? / Por que padecem assim? Sempre que evoco estes versos, me interrogo: que razão se continua dando aula “fônica”, se isso significa condenar milhões de jovens ao analfabetismo?

Eu sei que, neste remar contra a maré de medo, ódio e ignorância, precisamos cultivar uma paciência idêntica à do Jó, de que nos fala a Bíblia. Mas, Senhor, por que permitis que as crianças padeçam assim? Quanta crueldade!

Por: José Pacheco