“Valores falsos e palavras enganosas: esses são os piores inimigos para os mortais.” (Nietzsche)

Ser coerente será apenas ser congruente, estabelecer concordância entre idéias e fatos? No contexto escolar, talvez a coerência assuma a forma de fidelidade a princípio…Porém, em nome da verdade (palavra rara nos projetos político – pedagógicos das escolas) se diga que valores abundantes no discurso pedagógico raramente se traduzem em atitudes, talvez por não serem passíveis de concretização no contexto de uma sala de aula. Por exemplo: se o professor tem dever de obediência hierárquica, se não é autônomo, como poderá educar em autonomia? Ninguém dá aquilo que não possui. Se a autonomia é algo que se exerce em relação a outrem e o professor está sozinho na sala de aula, como poderá ensinar autonomia? O professor não ensina aquilo que diz; o professor transmite aquilo que é.

A mudança das instituições processa-se a partir da transformação das pessoas que as compõem e mantêm. Se o professor pretende despertar sentimentos de respeito ou de responsabilidade nos seus alunos, precisa colocar esses sentimentos nas suas atitudes. Por que ficar entre o discurso da mediocridade e a linguagem do génio, por que ficar no meio-termo? Schweitzer foi coerente: abandonou o conforto da cidade, foi selva adentro e consumou ideais.

Cortázar escreveu que uma ponte só é verdadeiramente uma ponte quando alguém a atravessa. Tão importante como escutar uma palestra ou ler um livro é escutar-se, escutar a si próprio, verificar a coerência entre o ato e a teoria. E saber fundamentar aquilo que se faz, assumindo compromissos. A teoria converte-se em ação, quando assumida em situações reais.

Precisamos de menos visionários e de mais coerência praxeológica. Dizia Kurt Lewin: teoria sem prática é viajar no vazio, prática sem teoria é viajar no escuro. Sabemos que a pedagogia age numa fronteira tênue entre intenção e gesto, pelo que não deveremos preocupar-nos apenas com grades curriculares – estejamos atentos aos modos de trabalho, que deverão considerar o ambiente social em que o aluno vive . A escola é apenas um momento da educação; a casa e a praça são os verdadeiros estabelecimentos pedagógicos, dizia – nos Pestalozzi. Não nos esqueçamos da necessidade de harmonizar valores do projeto escolar com os valores do projeto familiar (mesmo que ninguém o tenha escrito…).

Se nos lares e nas ruas escasseia a tranquilidade e a reflexão, como pretender que os nossos alunos se mantenham quietos e calados? Se há professores que atropelam-se ao falar e sussurram ao pé do ouvido do colega do lado, como poderão exigir dos seus alunos o levantar a mão, para solicitar a sua vez de falar? Essa postura de cidadania básica não é comum no decurso de reuniões de professores… E a incoerência pode gerar situações de embaraço: Ó professora, faça o favor de jogar fora a pastilha elástica. Nós somos proibidos de a usar!

A velha história é contada assim: Aquele barco a remos fazia a travessia de um rio. Num dos remos, tinha escrita a palavra acreditar; no outro, a palavra agir . O barqueiro explicou porquê. Usou o remo, no qual estava escrito acreditar, e o barco começou a dar voltas, sem sair do mesmo lugar. Depois, usou o remo em que estava escrito agir e o barco girou em sentido oposto, sem ir adiante. Quando usou os dois remos, num mesmo movimento, o barco navegou até à outra margem. Não “remou contra a maré” ou ao “sabor da corrente”. Uniu duas margens pelo impulso da escolha que lhe imprimiu um rumo coerente.

 Fonte: Pacheco José, Dicionário de Valores, 1ª ed. São Paulo: Edições SM, 2012