Por José Pacheco

O que é “comum” às escolas brasileiras é um obsoleto modelo educacional que a nova “base” não questiona. Porquê “utilizar termos anafóricos variados para estabelecer a coesão em textos narrativos”, no “5º ano”? Conteúdos curriculares (ou qualquer que seja a designação que, eufemisticamente, quiserem dar aos conteúdos) como mesóclises, piroclásticas, efeito de Coriolis, ou eugenol serão pertinentes, farão sentido? Será necessário e indispensável “ensiná-los”? Contribuem para uma vida melhor? Irão fazer com que os alunos sejam mais sábios, mais felizes, quando forem grandes?

À partida, a consulta pública sobre a BNCC está viciada. Presumo que os autores da proposta de BNCC também tenham sido vítimas da escola do professor Vasconcelos. Talvez ignorem que, nesse modelo de escola, por maior mérito que tenha a proposta, a maioria dos conteúdos nela considerados não será aprendida. E que o laborioso afã de a conceber terá sido tarefa vã. Suspeito de que os autores da BNCC desconhecem que há outros modos de conceber e desenvolver currículo em novas construções sociais de aprendizagem, nas quais os conteúdos são efetivamente aprendidos por todos. Um modelo de escola não segmentada, onde não Sem reprovação, sem recurso a “classes de apoio”, ou necessidade de “recuperação”, desenvolvendo currículo subjetivo a par de um currículo universal (não “nacional”) adequado a um currículo glocal e comunitário, envolvendo os jovens em aprendizagens significativas, como diriam o Bruner e o Vigotsky, que, por razões óbvias, não puderam participar da elaboração da BNCC brasileira.

Em recuados tempos, quando um governante pretendia publicar uma lei, mandava afixá-la ecrita em couro, ou papiro. Quando era necessário afixar uma nova lei, cobria-se o texto anterior com uma camada de cal. Porém, a exposição à intempérie provocava a queda da cal e o texto antigo voltava a ser visível. Talvez o mesmo aconteça com medidas de política educativa da atualidade: são palimpsestos.