Confira entrevista com o biólogo e educador Diogo Alvim que veio a Brasília no último fim de semana (10 a 12 de março) semear um sistema restaurativo de conflitos no Gaia Escola

“O conflito nos permite ser ampliado pela humanidade do outro”, explicou Diogo Alvim no primeiro dia de construção coletiva do Sistema Restaurativo do Gaia Escola. Foram três dias, de 10 a 12 de março, de reflexão, escuta empática e conflitos para que o biólogo e professor iniciasse um processo dinâmico e contínuo de construção deste sistema. Pesquisador desde 2007 da Comunicação Não-Violenta e sua aplicação no contexto educacional, Diogo Alvim reforçou durante o encontro a necessidade de se realizar acordos e estabelecer pré-condições claras para cuidar do nascimento deste sistema.

Durante os encontros, o grupo mapeou o que já usava e funcionava na solução de conflitos e quais instrumentos teria orgulho de que fizesse parte desse sistema em construção. Espaço de diálogo, escuta sem juízo de valor, respiração, empatia, conectar com o presente e rodas de conversa foram alguns elementos que emergiram na oficina. O encontro culminou em um grupo de estudos para discutir como funcionará o sistema e se aprofundar no tema. A proposta é usar o sistema para restaurar conflitos internos do Gaia Escola e também dos 14 núcleos de mudança em andamento. “A ideia não é resolver conflitos, é restaurar relações e identificar necessidades”, ressaltou Diogo.

Confira entrevista exclusiva com o educador sobre a importância dos sistemas restaurativos no Gaia Escola, nas escolas e no mundo.

O que é um sistema restaurativo?

Sistema restaurativo é um acordo consciente de coletivamente estabelecermos pré-condições ou criar acordos para criar condições de mudar a nossa resposta habitual a conflitos, na direção de uma resposta restaurativa. Uma resposta que restaura parcerias, relações, estabelece conexão. Restaura a humanidade compartilhada.

Qual a importância do sistema restaurativo nas escolas?

A escola é um mosaico da sociedade e viver em sociedade implica em lidar com o conflito. Enquanto o conflito é fonte de ameaça, de uma experiência de exclusão, de medo, de perda, de quebra, algo muito importante é perdido. Esse algo muito importante é aquilo que está embaixo do conflito, é a mensagem que o conflito guarda. Então a importância disso na escola é a de tirar os aprendizados, implícitos, guardados, ocultos no poder que o conflito traz, ou na mensagem que ele traz para as pessoas envolvidas, para o sistema em que está inserido.

Por que trazer o Sistema Restaurativo para o Gaia Escola?

Por um entendimento de que, enquanto a escola desperdiçar o poder guardado e as mensagens guardadas no conflito, ela vai continuar sendo refém das respostas habituais e das respostas culturais que a gente herdou. E, normalmente, o sistema que responde aos conflitos na nossa sociedade é o de justiça, seja ele formal, ou aquele que a gente cria, mais informal, dentro dos contextos onde a gente está. Então, pensar conscientemente sobre qual é o sistema de justiça que a gente quer e, principalmente, numa escola que é um espaço de aprendizagem, é fundamental. Por isso trouxemos essa proposta para o Gaia Escola, porque é um coletivo informação que pretende internamente refletir o que quer externamente. Pretende ser, internamente, a comunidade que quer contribuir, que exista, renasça e se aprofunde na escola. Então a ideia é que, ao reconhecer isso, a gente comece conscientemente a desenhar qual é sistema de justiça que a gente quer, para lidar com as nossas diferenças e os nossos conflitos.

Como isso se conecta com as comunidades de aprendizagem?

As comunidades de aprendizagem trazem um contexto sistêmico, a aprendizagem é fruto de um sistema e esse sistema demanda conexão, tecido social. E o sistema restaurativo vem para tentar cuidar desse tecido social, da coesão dele, da força dele, da resiliência dele para lidar com as mudanças e transformações que a gente quer.

Qual a importância do Gaia Escola para esse processo de transformação sistêmica?

O Gaia Escola é uma pesquisa de conectar, de sistematizar, de integrar as abordagens da comunidade de aprendizagem com as dimensões da sustentabilidade que o Gaia Education traz, junto com os sistemas restaurativos e o poder da escuta empática. E isso é como se fosse uma reconfiguração estrutural para apoiar  a saída do sistema educacional tradicional do atual estado de calamidade pública no qual se encontra. Aonde a gente tem no fundo um sistema que gera doença, gera neurose, sofrimento e resultados de eficiência e eficácia absolutamente pífios perto do potencial humano que existe. Então é como se fosse um retorno à nossa capacidade de convivência saudável, apoiativa. Reaprender uma nova pedagogia, do compartilhar, do existir junto, criar junto, agir junto.

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