Por Cláudia Passos

Recentes notícias acerca do desenvolvimento de novas tecnologias, em particular, da inteligência artificial (IA), são motivo de preocupação para muitos cientistas.

Estaremos perto de viver o roteiro apocalíptico dos filmes de ficção científica, nos quais as máquinas dominam o mundo e a humanidade será extinta? Se não modificarmos a nossa forma de ser e estar no mundo, esse parece ser o fim anunciado, num breve período de tempo.

Lendo uma reportagem sobre o tema, entendi que, em linhas gerais, a IA constrói sua resposta a partir de feedbacks, ou seja, se o emissor (humano) nutre o sistema com respostas de natureza ética, por exemplo, o sistema (IA) desenvolve uma resposta semelhante – será uma IA “gente boa”, ou, caso contrário, poderá ser gerado um monstro. Observando o atual cenário de degradação da humanidade, mesmo que existam muitos pontos de luz brilhando mundo afora, fiquei de cabelo em pé perante a informação. Mais ainda quanto li que dois sistemas conseguiram desenvolver uma linguagem própria, iniciaram um diálogo entre si e, só depois de um bom tempo, os programadores (humanos) se aperceberam do que estava acontecendo: a criatura começou a desenvolver sua própria inteligência.

Desenvolvemos, significativamente, a nossa capacidade intelectual. E a ética? Ter-nos-emos aprimorado neste sentido ou nos perdemos no lago de Narciso? E a escola será co-responsável por isso?

Criada para suprir as necessidades da Revolução Industrial, há pelo menos dois séculos, ela formatou gerações de seres humanos, adestrou-os para serem competitivos, seriados, escravos do tempo fabril, desconectados da natureza e da sua essência divida. Subservientes ao sistema.

Muitos poderão dizer: Sim, mas a escola nos trouxe até aqui, temos muitas coisas boas graças à escola. Poderemos concordar, em parte. Toda a realidade tem um ou mais lados… Para Adolphe Ferrière, a escola é invenção do Diabo. E, por tudo que vivemos na escola e por tudo que vemos acontecer hoje, Ferrière parece estar certo. Nossa capacidade mental a cada dia se supera. Mas… e o coração? E a estética?

De todas as áreas do conhecimento, a educação é a mais resistente a mudança. E, como diz o ditado: “quando a cabeça não pensa, o corpo paga”. E o coração, nem se fala! As estatísticas mostram quanto adoecida está a escola: altos índices de evasão, distúrbios emocionais diagnosticados para professores e educandos, violência física e simbólica. A escola, aquela escola que segue a tradição de fazer sem saber porquê, está agonizando.

Como criar convergência entre a velocidade da transformação do mundo e a da escola? A humanidade terá maturidade para recriar algo de tamanha complexidade? Seremos capazes de lidar com as consequências da nossa criação?

São muitas as perguntas as quais não sei dar resposta. Mas, sei que ainda podemos escolher e investir numa nova educação, para apoiar a manifestação de seres sensíveis, estéticos, solidários, que usam seu conhecimento em benefício da vida. É urgente!

No currículo: empatia, como ponto de partida; a natureza, como biblioteca de sabedoria; as tecnologias, a serviço do bem viver; a cooperação, a solidariedade, o respeito, valores que tecem o convívio em harmonia.

Só após concebermos uma nova escola, estaremos aptos a sermos criadores de uma nova criatura. Ainda temos tempo!