No último sábado, dia 28, a semente da Rede de Comunidades de Aprendizagem foi lançada em terreno fértil, com a presença de mais de 100 participantes. E começa a enraizar-se no Distrito Federal.

A pedido de muitos educadores, que desejam materializar uma nova educação, teve início um processo formativo, a desenvolver ao longo do segundo semestre de 2018. Os encontros presenciais e virtuais serão coordenados pelo professor português José Pacheco e pela designer de sistemas sustentáveis Cláudia Passos, ambos da EcoHabitare Projetos, empresa social, em parceria com os educadores do núcleo de transformação da Comunidade de Aprendizagem do Paranoá (CAP), inaugurada em abril.

“Esta ideia de comunidade de aprendizagem já existe como proposta teórica desde meados do século XX”, diz Pacheco. Ele cita como exemplo a obra “Escola de Comunidade”, de Lauro de Oliveira Lima, dos anos 1960, e projetos desenvolvidos no Brasil, ao longo do século XX. Afirma que “há toda uma tradição que entende a escola, não como um edifício, mas como um nodo de uma rede de aprendizagem. Comunidades onde se produz conhecimento que se transforma em bem-comum, fator de desenvolvimento sustentável”.

José Pacheco acrescenta que “o modelo educativo vigente não responde a necessidades sociais do século XXI, não dá conta da complexidade do mundo contemporâneo”. E Cláudia Passos diz-nos que “as questões socioambientais são tratadas perifericamente, mas deveriam estar no centro da aprendizagem. Temos a obrigação de preparar a geração que herdará um mundo em transição e extremamente desafiador para toda humanidade. Precisamos mudar a qualidade da relação com os outros e com o planeta. A escola da Primeira Revolução Industrial tornou-se obsoleta e nefasta, quando já estamos em plena Quarta Revolução Industrial”.

Até ao final de 2018, estará criada uma Rede de comunidades de aprendizagem no DF, uma nova construção social de aprendizagem, com foco nas interações sociais, na construção do conhecimento, distante das salas de aula tradicionais. Tem como inspiração a Escola da Ponte, escola pública portuguesa que, há mais de quarenta anos, é considerada inovadora e referência mundial em educação de boa qualidade, além do Projeto Âncora, em Cotia, e outros projetos acompanhados por Pacheco.

O pedido de criação de duas comunidades de aprendizagem veio da Secretaria de Educação do DF. Júlio Gregório solicitou a criação de dois protótipos de comunidade de aprendizagem: um no Paranoá e outro no Mangueiral. Entretanto, conta o professor, surgiram mais de vinte potenciais comunidades: Acredito que os educadores do Distrito Federal irão provar a possibilidade de todos aprenderem, de todos terem direito à educação”.

A proposta de fazer com que a comunidade esteja envolvida ativamente no processo educacional das crianças é algo que a professora Martha Paiva Scardua já procurava há anos: “O que nos move é a paixão pela educação mesmo, já que os salários são baixos. Então, eu já procurava essa proposta de um novo contrato social, de desconstruir a escola como esse espaço ideológico que se criou”, explicou. Ela esteve presente no primeiro encontro, que aconteceu neste sábado, mas já participa das conversas há um ano e meio. Assim como Pacheco, Martha acredita que o grande entrave ainda está no quadro normativo da educação, que amarra este tipo de inovação. “É preciso que a grande maioria das escolas demonstrem interesse”, sugere.

Para Pacheco, o sucesso do trabalho a ser feito no DF pode servir de exemplo e contribuir com os debates para a mudança deste quadro normativo. Hoje, a Comunidade de Aprendizagem do Paranoá já vive um pouco esta realidade, apesar de ainda ter que seguir as diretrizes normativas da uma Escola Classe, o que dificulta o processo de implementação da proposta pedagógica na sua totalidade.

A novidade empolga até mesmo quem vem de outras áreas. A advogada Beth Ribeiro foi ao encontro pela primeira vez e saiu maravilhada. “A ideia quebra o paradigma das salas de aula tradicionais, da aprendizagem voltada para que os alunos façam coisas repetidas”, explica entusiasmada. Ela teve um motivo muito específico para participar do encontro. Além da dica do filho, que estuda Pedagogia na UnB, Beth é facilitadora em mediação de conflitos e acredita que o tema tem tudo a ver com a proposta: “Hoje vemos que as pessoas não sabem se posicionar e quando o fazem é de forma violenta e não sabem ouvir o outro”.

A questão social da comunicação não violenta seria parte desta formação do ser humano pregada pela nova metodologia, que não apenas obedece a estrutura curricular convencional. José Pacheco explica que essa educação acaba modificando até a cidade. “Vimos com a experiência da Escola da Ponte que até a cidade se transformou em modelo”. Só que, para isso, José Pacheco confia na construção de uma política pública séria para o DF. “Temos condição de sermos referência para todo o Brasil.”

Serviço: 

As inscrições para os demais encontros são gratuitas. Mais informações: http://ecohabitare.com.br/formacao-gratuita-para-criacao-de-uma-rede-de-comunidades-de-aprendizagem-no-distrito-federal/