Os ministros dizem ao povo: como é difícil governar!

Talvez inspirado no poema do Brecht, o ministro exclamou: É vergonhoso! É claro que um país com essa defasagem não conseguirá dar um salto.

Perguntaram-lhe: Porque a educação brasileira não sai do buraco? O ministro respondeu com umamedida provisória, que aprofunda o buraco. E muita gente o criticou.

Pobre ministro! Ele foi apenas porta voz de um disparate confeccionado por “especialistas”. Os ministros são bem intencionados. Mas, desde que o MEC existe, assistimos a uma sucessão de mais de cinquenta engenheiros, economistas, advogados, médicos e outros ministros, para os quais as ciências da educação, presumivelmente, sejam ciências ocultas. Não se pode exigir de um economista ou de um advogado, a compreensão profunda do fenômeno educativo, nem se lhes poderá imputar a responsabilidade pelos buracos que ajudam a cavar.

Mas, se os ministros são inimputáveis, o mesmo não se poderá dizer dos seus subalternos. Fiquemos preocupados, quando o poder de decisão no campo educacional está nas mãos de “especialistas” crentes de que o ensino médio melhora com “flexibilizações” e “optativas”, mais carga horária, menos disciplinas… A medida provisória assemelha-se a outra dinossáurica reforma lançada há décadas, num país do hemisfério norte, sob a égide de professáurios universitárius com crédito no ministério. Nesse tempo, quer fossem provisórias, quer fossem definitivas, por dignidade profissional, agíamos em defesa dos interesses dos alunos, desobedecendo.

Muita gente já se pronunciou pró e contra uma reforma condenada a ser reformada. Mas nem um comentário ela mereceria É desprovida de bom senso e vazia de fundamentação científica – embora nela inscrevam termos como autonomia e flexibilidade, a demagogia não rima com pedagogia. A medidarecupera propostas da década de 1990, evoca iniciativas da cinzenta década de 1960 e faz lembrar o modelo da reforma Capanema, dos anos 40, quando sugere a divisão entre clássico e científico. Até mesmo aparenta ferir a Constituição e a LDB. O MEC reconhece que o sistema faliu, mas insiste em mais do mesmo, mitigando a falência do sistema, sem entender que o buraco é mais em baixo.

Lemos em Lucas (3. 23): Tinha Jesus cerca de trinta anos ao começar o seu ministério. A palavra ministério advém do grego “diakonia”, prestação de serviço. E o étimo latino ministeriu significa serviço exercido por um ministro, termo que tem origem no latim ministru, isto é: servidor. Por isso, quando perguntaram ao Ivo o que faria para melhorar o ensino médio, acaso fosse ministro, ele respondeu que emitiria um decreto extinguindo o ministério. O Ivo tinha razão: não são precisas mais reformas; é o MEC que precisa ser reformado. Mas não sejamos tão radicais. Não percamos tempo a criticar inocentes ministros, ou tentando atenuar funestas consequências de iniciativas vãs.

Se quem tem um ministério é um servidor, assumamos o compromisso ético de exercer um ministério da educação contemporânea, com o quanto baste de lei e de ciência. O Brasil dispõe de excelentes educadores (inclusive, no MEC) e de projetos educacionais de boa qualidade. O Manifesto de 2013 aponta caminhos, que podem conduzir o Brasil à educação necessária. Aproxima-se a CONANE de 2017, após a realização das suas congéneres caiçara e candanga. Ajudemos o MEC a sair do buraco, para garantir aos alunos do ensino médio e a todos os brasileiros o direito à educação, que a Constituição consagra.