Petrópolis, novembro de 2039

Netos queridos,

Passei muito tempo no chão das escolas, ajudando educadores e aprendendo com eles. Com os jovens e não para os jovens, construía roteiros de estudo do currículo da subjetividade. E logo surgiam as inevitáveis perguntas, que me davam a conhecer indícios de necessidades, desejos, sonhos, que pudessem dar início a projetos de vida.

O que queres saber?

Os jovens nada respondiam.

O que queres aprender?

Quase sempre, tinha o silêncio por resposta. E insistia:

O que queres fazer?

Por vezes, respondiam que “queriam fazer matemática”, ou “língua portuguesa”. Mas, quando lhes perguntava o porquê da escolha, encolhiam os ombros e nada acrescentavam.

Então, passava ao terceiro pilar da educação:

O que queres ser? – Não acrescentava “quando for grande”, porque perguntar isso a uma criança constitui insulto. Invariavelmente, recebia por resposta:

Eu posso dizer aquilo que quero fazer? Eu posso dizer o que eu quero ser?

Ao cabo de alguns anos de escutar respostas a perguntas que jamais fizeram, os jovens tinham desistido de perguntar.

Cumprido o tempo de matar a curiosidade em sala de aula, já no tempo em que as crianças ousavam perguntar, vivi uma peculiar situação. Um jovem interpelou-me:

Professor Zé, é verdade que um ser vivo é um ser que nasce, cresce, se reproduz e morre?   

Há muito tempo, havia deixado de dar aula, de dar respostas sem escutar perguntas. Mas, durante muitos anos, eu havia dado aula sobre ser vivo. No início dessas aulas, escrevia no quadro negro a data e o sumário, seguidos da definição do conceito, exatamente, o que aquela criança havia dito. Fiquei feliz por ter aprendido sem que eu lhe tivesse ensinado…

Alguma dúvida, meu querido?

Eu não concordo.

Não concordas com o quê?

Com isso, com o que está no livro.

Respirei fundo, disfarcei a surpresa e a contrariedade.

Por quê? Posso saber?

Pensa um pouco, Professor Zé! – exclamou o mocinho – Se um ser vivo é aquele que nasce, cresce, se reproduz e morre, então eu não sou um ser vivo, porque ainda não me reproduzi, nem morri. E tu também não és um ser vivo…

Logo uma jovem se meteu na conversa:

Também tenho uma dúvida. Escolhi um ser vivo, para o estudar. Foi o bicho-da-seda. Aprendi como se faz a seda. Mas, antes, tive de tirar folhas da amoreira, para dar de comer aos bichinhos. Quando os bichinhos fizeram os casulos, já não foi preciso pegar folhas da amoreira. E a amoreira também deixou de ter folhas. Eu li num livro que as árvores respiram pelas folhas. Então, por onde respiram, quando não têm folhas? Asfixiam? É isso?

Era, também, um tempo em que os professores escutavam. Fazendo jus aos ensinamentos de Dewey e Kilpatrick, envolvemo-nos num projeto. E todos – alunos, professores, vizinhos e familiares – pesquisaram, aprenderam o que era um ser vivo.

Trinta anos decorridos, numa escola de Petrópolis, vi multiplicarem-se idênticas situações, por via do afã de uma maravilhosa educadora de nome Cecília e da sua equipe de projeto.  A Cecília era uma professora que se surpreendia:

Organizaram a folha, contavam nos dedos as letras e iam escrevendo suas palavras. Me solicitaram, vez ou outra, para tirar uma dúvida na escrita, ou dúvidas gerais, tipo “Tia, inhame é legume?” Fiquei um tempo acompanhando o jogo e o envolvimento delas com a brincadeira e com a escrita (…) é bom demais quando se vê sentido nisso. Usar a escrita com autonomia para se divertirem me encantou!

Havia sentido, significado, vínculos, aprendizagem… havia projeto.

Acolhei o abraço do vosso avô José.

 

Por: José Pacheco