Taguatinga, fevereiro de 2040

Queridos netos, no tempo em que os vossos olhos se habituavam ao céu do sul da vossa infância, o vosso avô atravessava esse mesmo céu no ventre de um pássaro de metal, respondendo aos apelos de educadores sequiosos do fermento que faz levedar os sonhos. Nesse tempo, também as palavras voavam, mas no ciberespaço, nas asas que homens de engenho lhes deram. De modo que, cada vez que regressava do outro lado do oceano, já as ideias e sentimentos de muitos e maravilhosos educadores haviam chegado à minha caixinha do correio electrónico (correio electrónico era um utensílio que usávamos no tempo em que viestes ao mundo).

Dou-vos ler pedacinhos de uma dessas mensagens: Caro Zé, eu continuo na minha pesquisa, juntei algumas coisas, servirão bastante para colocar “a pulga atrás das orelhas dos professores”. Quem sabe eles não dão o famoso pulo do gato e reinventam formas de compreender o que está acontecendo com seus alunos? Veremos. É impressionante como os dirigentes dessa educação brasileira ainda não perceberam por onde se vai a Roma! É mexendo com o corpo e a alma dessa criançada. Só o governo é que não vê.

Recordo-me de que, há vinte anos, mais ou menos por esta altura, um ministro escrevia com erros ortográficos. Poderia tê-lo feito por distração. Estou inclinado a admitir essa possibilidade. Nenhum mal viria ao mundo decorrente de erros ortográficos. Bem mais graves foram os erros cometidos por via da ignorância de ministros, para os quais as ciências da educação ainda eram ciências ocultas e que tomavam decisões fundadas em meras crenças e preconceitos.

Há vinte anos, tinham passado pelo ministério da educação brasileiro médicos, advogados, políticos de carreira, empresários, jornalistas, contabilistas, militares, engenheiros, economistas, teólogos, administradores de empresas… cerca de meia centena de homens e apenas uma mulher. Raros foram os pedagogos, que passaram pela função. Raríssimos foram os professores que, tendo usado da cadeira do poder, algo útil fizeram. E. quando fizeram, não tiveram tempo de aquecer a cadeira ministerial.

Enquanto alguns incorriam no equívoco de atribuir os males do sistema a uma “pedagogia romântica”, que ninguém praticou, que nenhuma escola adotou, que nem o ministro saberia dizer qual fosse, outros atribuíam a causa dos males aos seus predecessores.

Num breve tempo em que, gratuitamente, no Brasil, participei de grupos de trabalho e percorri corredores e salas dos ministérios da educação, quase só vi burocratas a passear papeis. E, nas reuniões, quase sempre prevaleceu um discurso rasteiro, eivado de senso comum pedagógico. Cadê a Educação?

Certa vez, um ministro da educação admitiu que o ensino médio “estava no fundo do poço“.  No 3º ano do ensino médio, só 4% dos alunos sabiam o que deveriam saber no domínio da matemática. E o índice de proficiência em língua portuguesa ia pelo mesmo caminho. O MEC ia “empurrando a crise com a barriga”. Naquele tempo, os professores do Ensino Superior queixavam-se dos baixos índices de proficiência dos alunos do ensino “inferior”. O “preparo” do Ensino Médio era condicionado pelo Enem. O Ensino Médio projetava a culpa no Fundamental. O Fundamental atirava culpas para a Educação Infantil. E esta responsabilizava as famílias, não podendo as famílias responsabilizar o Criador.

Felizmente, no janeiro de há vinte anos, na casa do amigo Isaac, educadores éticos marcaram encontro. E eu estava lá. Contar-vos-ei o que aconteceu.

 

Por: José Pacheco