Aljezur, outubro de 2039

Muitas vezes, escutei duas perguntas e respetivas respostas, dadas pelos alunos, quando mostravam a escola aos visitantes:

Onde é o gabinete do diretor?

Aqui não tem.

Mas, onde está o diretor?

Está com os alunos. Onde deveria estar?

Oficialmente, eu era o diretor da Escola da Ponte. Há uns sessenta anos, passava oito horas no trem (perdoai que em brasilês eu me expresse), que me levava ao ministério, para prestar esclarecimentos requeridos pelos inspetores. Eu falava alhos, eles respondiam bugalhos. Dito de outro modo: eu lhes dizia por que não dava aula, porque não havia turma, nem carga horária; eles falavam de aula, de turma, de carga horária. O mesmo diálogo de surdos, que acontecia, sempre que eu conversava com diretores de ajuntamentos de escolas. A grande maioria dos diretores estavam longe da prática pedagógica, há muitos anos. Lidavam com papéis, quando deveriam trabalhar com alunos.

No facebook (devereis recordar-vos desse velho recurso da Internet) de um mês de outubro de há cerca de vinte anos, o amigo José Matias Alves falava-nos de “lideranças tóxicas”, um tipo de liderança das organizações escolares. Aconselhava a existência de uma liderança transformacional, que protegesse as escolas da ameaça da balcanização, operada por forças que pululavam entre o palco e os bastidores do quotidiano de ensinar e aprender.

O José elaborou um enunciado descritivo do padrão das lideranças tóxicas: centralizavam o poder e afirmavam-no de várias formas e feitios; reservavam e controlavam a informação, para saberem mais do que os outros; desconfiavam das capacidades dos outros e não perdiam oportunidades para o evidenciar; preservavam as distâncias e cultivavam o cerimonial da subserviência; construíam dispositivos de controlo sobre rumores e boatos organizacionais; instituíam formas tendencialmente vassálicas de relação; fundamentavam o poder na autoridade legal, com o argumento “eu é que sou o diretor”; eram permeáveis à prepotência e ao amiguismo, destruindo qualquer hipótese de construção de comunidades educativas; cumpriam as orientações superiores, desvalorizando a legitimidade democrática que as colocou nesse lugar; tinham dificuldade de escuta, não construíam laços, envenenavam relações, semeavam a discórdia.

As organizações educativas que tinham a desgraça de serem governadas por esse perfil de liderança passavam dificuldades. Prevenida pelo amigo José, a Ponte protegeu-se dos riscos de liderança tóxica. Celebrou com o ministério um contrato de autonomia. Sucessivos relatórios de avaliação externa confirmavam a excelente qualidade da educação que na Ponte se fazia. Mas, ministros de má memória não respeitaram o acordo, impuseram novas regras, ameaçaram com o desemprego dos professores. Os professores cederam perante a intimidação, porque o cansaço era de muitos anos. A escola ficou ilhada, no outro lado do rio. E o contrato de autonomia foi para o brejo.

Entretanto, educadores resilientes lograram devolver autonomia às escolas e dignidade ao ato de ajudar a aprender. Os tempos são outros…

Com Amor, o vosso sempre e resiliente avô José.

 

Por: José Pacheco