Heliópolis, janeiro de 2040

O Amor sacraliza o ato de educar… Ainda de passagem por Sampa e pelo lugar onde o meu amigo Braz Nogueira operou milagres, vos falarei do Bino. A sua estória assemelha-se às de muitos sacrificados moradores da comunidade de Heliópolis. E, porque sabia a origem do drama – é de pequenino que se torce o destino! – o Braz ajudou a  transformar vidas em Heliópolis, na transformação da escola, nas  caminhadas pela paz, pelo seu afã de educador ético.

O Bino era um jovem relutante às “aprendizagens escolares”. Especializara-se em assaltos a hortas e pomares. Não conheceu pai nem mãe. Consumada a parição, a progenitora abalou para França, no rasto do presumível pai. Cresceu entre maus-tratos e fomes. Ao fim da tarde, engolia sopas de cavalo cansado, enquanto aguardava a chegada da avó. Ela chegava embriagada e de terço na mão. Avistando-a, o Bino descalçava as botas herdadas do falecido avô e atirava-se para debaixo das mantas.

A infância acaba quando alguém reconhece que a sua vida deixou de ser um jogo maravilhoso, ou quando alguém proíbe outro alguém de brincar. O Bino soube-o quando a avó Zefa o fez levantar da cama, numa frígida madrugada, aos quatro anos mal feitos: Hoje, és tu quem leva o rebanho ao monte, que eu não me tenho de pé.

Pelo meio da tarde, o cão guiou o pequeno rebanho no regresso a casa, com o Bino a reboque, esfomeado e com os pés descalços, fustigados pelos cardos. Nunca mais ficaria no aconchego do leito para além do nascer do sol. E o Malhado viria a ser seu mestre e única companhia, até aos sete anos de idade.

Um dia, “uma senhora bem vestida, bem cheirosa e aprumada” (palavras que o Bino me ditou) espreitou para dentro daquele tugúrio partilhado por animais e gente, e perguntou se a avó se chamava Josefa da Conceição. Disse vir da parte das autoridades e que tinha mandado uma carta à avó. A avó retorquiu que não senhor, que não tinha recebido carta coisa nenhuma e que, ainda que tal cousa lhe chegasse, nenhuma serventia teria por das letras nada saber.

De nada valeu a ladainha à avó que das letras nada sabia. O único proveito que a avó Zefa obteve da “senhora bem vestida, bem cheirosa e aprumada” foi uma magra pensão de sobrevivência, tão magra que mal dava para encomendar meia dúzia de garrafões de vinho. Sem pastor, o que restava do rebanho foi arrematado pelo Luís Vendeiro. O Malhado foi servir outros senhores e o Bino transformou-se num degredado de fundo de sala. No dizer da mestra, o moço era coisa ruim e insubmissa e nem com porrada obedecia.

Com dez anos feitos, foi transferido para uma escola de “última oportunidade”. À semelhança de muitos outros casos de “insucesso” que a essa escola aportaram, o Bino ia recomendado por psicólogos. Apesar dos dez anos feitos, aparentava não ter mais de seis, ou sete. O seu reportório de insultos era vasto. O impropério era uma das suas competências mais notadas, ainda que não constasse do currículo formal. Mas essa competência foi abalada numa assembleia em que se provou que os “palavrões” usados pelo Bino não constavam do dicionário. E, se não constavam, não existiam, pelo que a Assembleia deliberou que o Bino teria de refazer o seu repertório. O Bino esmerou-se. Passou por um processo de profunda reelaboração cultural, para gáudio dos companheiros e satisfação dos professores.

Para que se perceba o trajecto de reparação dos danos, por que o Bino passou naquela escola, transcrevo, a título de exemplo, um depoimento deixado pelo Bino no mural do “Acho Ruim”: “Eu acho mal que os meninos vão ao banheiro, defequem e, depois, deixem o vaso todo cagado”.