Catulé, 7 de setembro de 2040

Nos anos vinte, o Brasil era um país pródigo em feriados e dias santos. Havia o “Dia da Oficialização da Letra do Hino Nacional”, o “Dia de São Zacarias”, o “Dia do Alfaiate”, o e até o “Dia do Sexo”. Todos eles celebrados em 6 de setembro. E, ontem, quando passava junto à margem de um riacho da Zona Sul de São Paulo, me lembrei de que, hoje, se comemoraria a “Independência do Brasil”. Terá sido junto às margens de um Ipiranga ainda não poluído que um Pedro soltou o grito de revolta, que desfez a umbilical dependência de sua mãe e fez nascer uma nação.

Sessenta anos mais tarde, o fundador da Congregação dos Salesianos profetizou a construção de uma nova capital para um país tropical. Diz-se, também, que tudo começara com um sonho:

“Entre os graus 15 e 20 havia uma enseada bastante longa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago. Disse então uma voz repetidamente: Quando se vierem a escavar as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra prometida, de onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”

Em agosto de 1883, Dom Bosco sonhou que andava em peregrinação por terras da América do Sul. Oniricamente, chegou à região entre os paralelos 15° e 20° e vislumbrou um lugar, supostamente no Planalto Central brasileiro, exatamente no intervalo de coordenadas geográficas sonhadas, junto ao Lago Paranoá. Nesse lugar seria fundada a cidade de Brasília. E, no Paranoá seria criada a primeira escola com a designação de comunidade: a Comunidade de Aprendizagem do Paranoá, mais conhecida por CAP.

Nessa escola e por todo o Distrito Federal, utópicos “candangos da educação” aprendiam a ajudar a aprender, seguindo o exemplo emancipador do Pedro e a utopia de Dom Bosco, substituindo uma obsoleta escola “anglo- prussiana” por uma nova escola, a que poderíamos chamar “luso-brasileira”.

No WhatsApp daquele tempo, a minha amiga Edeny escreveu:

“Um aluno quis saber por que razão 19 de abril era o “Dia do Índio”. Me veio com essa… e eu não sabia. Mas, construtivista que sou, pronta a aprender junto e sempre, saímos a pesquisar e encontramos a resposta. Hoje, foi o meu amigo José que me trouxe a explicação da campanha “setembro amarelo”. É bom saber o porquê da data e o porquê da cor da campanha”.

Construtivista, como declarava ser, a Edeny se conservava na idade dos porquês. Ficou sabendo que setembro era o mês de prevenção do suicídio no Brasil e por que fora escolhido o amarelo para o representar.

Em 1994, um jovem de 17 anos se matou dentro de seu Ford Mustang… amarelo. Esse adolescente cometeu suicídio por não saber pedir ajuda. Durante o enterro, os pais distribuíram cartões com fitas amarelas para todos os presentes, onde estava escrita a frase “Se você está pensando em suicídio, entregue este cartão a alguém e peça ajuda!”.

O jovem suicida estava sozinho, tal como a criança, de que vos falei em outra cartinha e que se suicidou com veneno de escaravelho. Face a essa tragédia, procuramos identificar os motivos pelos quais uma criança pudesse pôr fim à vida. Descobrinos que, nas escolas de professor solitário em sala de aula, a solidão dos professores era da mesma natureza da solidão dos seus alunos.

As escolas eram arquipélagos de solidões. Urgia eliminar insularidades, para salvar vidas. Criamos dispositivos como o “Tutor”, a “Caixa dos Segredos” e o “Preciso de Ajuda”, que abreviaram e extinguiram situações de discreto sofrimento.

Como já vos disse, ao instituirmos canais de comunicação, alteramos o grito do Pedro, às margens do Ipiranga, para… “Interdependência, ou Morte”.

Por: José Pacheco