Serra das Araras, 18 de setembro de 2040

Por volta do mês de maio da pandemia, uma “circular para as escolas” assim rezava:

“Abrir a creche agora? Não vá atrás de conversa fiada! Não proceda de forma irresponsável, ao arrepio da Lei. Se consumada essa transgressão às leis, decretos e normas vigentes em função da pandemia, como querem irresponsavelmente alguns, isso poderá gerar a incriminação das escolas, seus mantenedores e gestores. Além dos mantenedores, os pais também poderão ser responsabilizados pela Justiça por esse verdadeiro ato criminoso, de expor incapazes (crianças e adolescentes) a situações de contrair uma doença mortal, se levá-los de volta para a creche ou escola ainda sem os procedimentos de segurança e saúde necessários à proteção dos alunos e toda a comunidade escolar. Não podemos entrar em desespero e fazer o jogo daqueles que tentam iludir você, falseando a verdade só para tirar proveito da situação”.

Pouco tempo depois, o apelo da “força da grana, que ergue e destrói coisas belas” foi mais forte do que o respeito pela vida. Essas vozes se calaram ou se juntaram ao coro dos que apelavam ao “regresso às aulas”.

“Especialistas” em educação “alertavam para o impacto econômico do fechamento das escolas” e declaravam: “Está claro que a reabertura das escolas não agrava a pandemia”. Não estava claro. Aliás, estava até muito escuro, como iremos ver…

Uma ministra alertava para a necessidade de manter distâncias e evitar ajuntamentos, na luta contra a pandemia: “As regras são da responsabilidade de cada um de nós. Manter a distância, usar máscara e desinfetar as mãos é responsabilidade é de cada um”. Porém, a mesma ministra rejeitava a ideia de que a escola era um lugar inseguro. Afirmou que “se havia sítio seguro, esse sítio era a escola” e que os diretores de escolas diziam ter condições para receber os alunos.

Em meados de setembro, recebi mensagens de familiares de alunos, que temiam o regresso à mesmice, sem garantia de proteção face à covid-19. Não recusavam apenas regresso ao prédio da escola, mas o… “regresso às aulas”. Pais atentos se aperceberam que a sala de aula não era um lugar seguro. Como diziam os brasileiros de então, “o buraco era mais em baixo”. Muitos pais tinham compreendido que as aulas prejudicavam os seus filhos, que numa aula quase nada de útil eles aprendiam. E o que aprenderiam dentro de uma sala de aula, que não pudessem aprender fora dela? Mutatis mutandis, por amor aos seus filhos, não permitiram que fossem para dentro de um prédio a que chamavam “escola”. E muito menos para dentro de uma sala de aula.

Diretores ameaçavam com falta injustificada e até com a “reprovação por faltas”. Face a manifestações de irresponsabilidade e autoritarismo, aconselhei os pais a exigir dos diretores a assinatura de termos de responsabilidade. Um termo em que o diretor assumisse responsabilidade, acaso os seus filhos e familiares viessem a serem infetados pela covid-19, ou até morressem. Outro termo, em que o diretor garantisse que, em sala de aula, o direito à educação a todos seria garantido. De igual modo, os professores conscientes dos malefícios da aula instrucionista poderiam exigir, como condição do regresso ao prédio da escola, uma declaração assinada pelo diretor, na qual ele assumisse que os professores tinham direito de não “dar aula”.

A escola da aula agia à margem da lei. Não garantia cuidados de saúde. Não garantia a preservação da vida. Não garantia o fundamental direito à educação. Urgia conter ilegalidades, devolver à escola a dignidade do ato de educar.

 

 

Por: José Pacheco