Algures, no dia 1 de março de 2041

Hoje, o ser humano mais perfeito de quantos seres humanos conheci faria cento e doze anos. A extrema generosidade e a discreta honestidade do vosso trisavô Mário foram para mim exemplo. E quero que saibais que celebro o seu nascimento, porque o sinto presente. 

No tempo do seu terreno existir, o “Avô Mário” vivia para além do tempo, vivia a eternidade em vida. Sabia que muita infelicidade humana findaria quando a humildade desfizesse o mito da existência de um tempo medido. Nada acabava, quando se acabava um ano. Quando um ramo secasse, novo ramo germinaria. Quando uma certeza tombasse na arca das inutilidades, novas doutrinas, tão perecíveis como as perecidas, se esboçariam, no rendilhado tecer das efémeras ciências. Era durável somente o que fazia sentido, o que se renovasse em cada um dos nossos transitórios dias. 

Quando, no início do século, me afastei da pátria, para viver e morrer nos braços da mátria brasileira, todos os dias primeiros do mês de março, numa ligação telefônica, que era mais do que uma breve conversa, o felicitava por ter cumprido mais um ano de vida. Era uma singela homenagem, ato de gratidão, porque aquilo que com ele havia aprendido não tinha preço. 

Com a avó Mina, o Avô Mário dedicara grande parte da sua vida a cuidar da educação religiosa de crianças e adultos. Já idoso, visitava os enfermos e os velhos impossibilitados de “ir à missa” e com eles comungava. A memória desse ser extraordinário me conduziu à evocação daquele que foi seu guia, um Jesus que disse que o homem velho não tardaria a interrogar, ao longo dos seus dias, uma criança. 

Qualquer criança sabe que o tempo não existe, que é invenção dos homens. O tempo não é mais que uma sucessão interminável de bateres de corações alimentados por gestos de ternura. Gestos de todos os dias, que restituem aos dias, que despontam ou cessam, o suave mistério da vida sem tempo calculado. 

Quem, como eu, alcançou a provecta idade da criança, sabe que viver não é mais do que sorrir perante um calendário, compadecer-se da angústia dos que ainda creem que é o tempo que passa. 

Conheci um homem sensível à dor humana. Walter Steurer compreendeu que fazer contraturno de escola era como “tentar enxugar gelo” e me convidou para “salvar vidas de jovens”, me desafiou para ajudar a criar uma escola. Quando convenci a Cláudia a trocar Minas por São Paulo, com maravilhosos educadores se fez o “Projeto Âncora”. Mas, o Walter já partira deste mundo, num primeiro dia de março. E, quando começaram as matrículas nessa escola, a primeira criança matriculada nascera… num primeiro dia de março.

Quando, vinte anos atrás, a minha barca de sonhos chegava ao seu terceiro porto e se aprontava para nova viagem, comecei a coabitar com um mistério a que não dei nome. Os projetos, até então ainda anónimos, viriam a resgatar a vocação da Escola, como se o tempo fosse circular. E súbitos reencontros de um tempo linear nos mostravam que nos alimentávamos de ocultas solidariedades, para além do tempo.

Talvez não te recordes, Alice, mas houve alguém que mexeu com o teu conceito de tempo e te dirigiu a habitual pergunta: 

“O que queres ser, minha menina, quando fores grande?” 

“Eu quero ser veterinária, minha senhora!” – respondeste.

“Então, vais ter de ir à escola, vais ter de estudar muito.” 

“E para que tenho eu de ir para a escola, minha senhora?”

“Porque sempre foi assim ao longo do tempo, minha menina. Os pequenos vão para a escola, os grandes vão trabalhar.” 

“Então, eu acho que já não quero ser grande.”

Alice, se puseste fim à conversa, foi porque fizeste parar o tempo que não existe.

 

Por: José Pacheco