Muzambinho, 12 de janeiro de 2041

Num WhatsApp, a minha amiga Teca manifestava preocupação: 

“Meu amigo, te percebo cansado. Talvez esse excesso de vontades depare com poucas ações. Existe muito medo com o novo e comodismo com o velho. Sem se perceber que o novo é velho, já faz muito tempo. 

Sinto que sua luta é diária, mas percebo que apesar do seu cansaço, as mudanças vêm ocorrendo. Talvez não com a força que querias, mas com parcimônia e sabedoria. Obrigada, pelo muito do que sei hoje e por poder proporcionar uma educação de boa qualidade para as nossas crianças. Obrigada, por me ensinar a ter coragem. Suas palavras ecoam fortes em meu coração. Pode ter certeza, não desistirei!” 

Nos idos de vinte, a Internet trazia-me lenitivas palavras. E, com as palavras, a certeza de que muitas sementes lançadas já floresciam. Porém, eu não poderia tolerar “pedagógicos comodismos”. “Tolerância não significa aceitar o que se tolera”, como Gandhi nos dizia.

O termo tem origem na palavra “tolerare”, que significa “suportar pacientemente”. Mas poder-se-á aceitar que a paciência suporte a indiferença? Poder-se-á tolerar que todas as atitudes sejam consideradas legítimas? Poderemos incorrer num relativismo “tolerante”, onde a verdade e a mentira se equivalem? 

Que diferença haverá entre tolerar a passividade de um educador perante atos inaceitáveis e aceitar que se deva colocar limites a um colapso ético? A tolerância confundida com a permissividade não permitirá que os tolerados imponham as suas regras (ou caprichos), negando a assimetria entre direitos e deveres?

Popper sintetizou essa tensão numa frase: 

“Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, se não corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância.”

E José Saramago o confirmava:

“Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro”.

Li (já não sei onde) que a ética se assemelha a uma reta: a menor distância entre os pontos A e B, onde A é o Ideal e B, a Ação. Deveríamos tolerar a incoerência entre o pensar e o fazer, ou fincar barreiras perante procedimentos moralmente contraditórios?

Netos queridos, vos garanto que sempre tentei dialogar com os “vendilhões do templo” da educação. Mas, de que valia participar num diálogo de surdos?

Nos idos de vinte, era comum o uso da expressão “educação democrática”. Correndo risco de suscitar polêmica, eu arriscava perguntar: 

“As decisões tomadas pelos educadores de uma escola deverão ser tomadas por maioria? Aceitando, tolerando, ou por consenso?” As minorias a quem fossem impostas “decisões democráticas” as respeitariam, aceitariam tais decisões, cumpririam aquilo que fora decidido pela “maioria”? As decisões deveriam ser pautadas na tolerância, ou na aceitação?

Nesse tempo, os brasileiros pareciam tender à tolerância. Talvez por ser mais cômodo ir ao aeroporto, xingar o time que perdeu uma partida de futebol, do que manifestar na rua a não-aceitação do enriquecimento ilícito, da corrupção, dos crimes contra o erário público. 

Era mais fácil não-intervir, quando energúmenos jogavam latas vazias pela janela do carro, ou quando uma justiça obtusa permitia que um político corrupto beneficiasse de impunidade. 

O péssimo exemplo de significativa parte da classe política influenciava o caráter do povo, poluía as mentes com valores negativos. O povo brasileiro sofria de tolerância face a atos imorais de indigentes morais.

 

Por: José Pacheco