Brazilândia, 17 de maio de 2040

Queridos netos,

Talvez estejais recordados de vos ter falado da ameaça recebida pelo pai de uma aluna. O professor reencaminhara “algumas palavras da subdiretora”, relembrando que “os alunos eram obrigados ao cumprimento das atividades propostas para as sessões síncronas e assíncronas”. Quando algum aluno não estava contatável, a direção enviava uma carta registada com aviso de recepção ao respetivo encarregado de educação. Acaso a carta fosse devolvida, uma informação seria enviada às autoridades competentes, para que a família fosse questionada.

Era admirável o zelo legalista dos guardiães do obsoleto modelo da ensinagem. E indisfarçável o seu autoritarismo. Eu admirava o esforço dos professores, procurando não perder o contato com os seus alunos. Mas havia quem obrigasse os alunos a vestir uniforme, durante as aulas virtuais. Outros “marcavam falta” a quem desligasse o computador. Havia, também, quem fizesse a “chamada”, ou estabelecesse um horário para os alunos irem ao banheiro. Essas arrogantes e ridículas atitudes eram resultado do cumprimento do “dever de obediência hierárquica”.

Durante mais de cinquenta anos, lidei com os ditos “superiores”. Para perceberdes a estirpe das criaturas, vos descrevo uma situação vivida, quando da apresentação pública de um projeto, que viria a ser considerado um dos mais inovadores do século XXI. Os “superiores hierárquicos” disseram não entender o que estavam a ouvir e lamentaram-se das canseiras, que lhes “consumiam as horas e lhes desgastavam os nervos”. Foi-lhes dito que as novas práticas reduziriam a carga burocrática, origem dos seus queixumes. Reagiram com agressividade:

Era só o que faltava! O que você está a dizer é um absurdo! Onde já se viu? Uma escola tem de ter salas de aula, turmas. Sempre foi assim! E os professores têm de fazer o registo diário das aulas que deram e da matéria ensinada.

Sensíveis e pacientes, os educadores foram dizendo que nem “sempre foi assim” e que não seria necessário argumentar a legalidade da proposta, pois estava alicerçada na lei e numa ciência prudente. Quem teria de provar não ser possível a mudança seria quem usava de legalismo, para a impedir.

O que querem dizer com isso? – retorquiram.

Respeitosamente, os professores explicaram que, na Lei, nada obstava a que o projeto se concretizasse. E, pela enésima vez perguntaram: O que impede?

Tentando disfarçar tiques autoritários e sem saber o que responder, em tom de ameaça, os funcionários da secretaria de educação determinaram:

É assim, porque terá de ser assim e continuará assim! Não mudaremos uma linha dos regulamentos, nem uma vírgula! E não se esqueçam de que nos devem obediência!

Naquele tempo, muitos professores tendiam a interiorizar o autoritarismo dos ditos “superiores hierárquicos”. Intitulavam-se “servidores”, mas eram meros serviçais. E, com medo de perder o emprego, subordinados e serviçais abandonaram o projeto.

Recusando dialogar, os “superiores” acreditavam ter aniquilado o projeto dos “inferiores”. Mas, uma rede de comunidades de aprendizagem começou a tomar forma. Os educadores leais ao projeto aperceberam-se de que a administração ostentava regulamentos fósseis, típicos de uma educação do século XIX – normas e prescrições que, acatadas, impediam o cumprimento do artigo 205 da Constituição: o do sagrado direito à educação. Viram, claramente visto que, impedindo a mudança, a administração agia à margem da lei.

Por: José Pacheco