Distrito Federal, 3 de agosto de 2040

Entre os anos setenta e oitenta, participei em inúmeros círculos de estudo. No início da década de noventa, ajudei a juntar educadores de vários círculos e a Associação PROF foi fundada. Essa associação criou o primeiro centro português de formação continuada. Transcrevo parte da ata de reunião de um dos círculos de estudos realizados na PROF, há cerca de cinquenta anos:

“Os professores não exercem de uma forma feliz a sua função. As pessoas começam o ano cansadas. Dizem que não lhes apetece fazer nada. Há um desgaste imenso. Ainda bem que houve esta chuva de exigências. Mostrou a fragilidade dos professores. Mostrou que, já antes, as coisas funcionavam mal. Se estivéssemos certos do nosso valor e do valor que a sociedade reconhece ao nosso trabalho, a avalanche não seria tão sentida. Pode estar a faltar determinada formação…”

A ata dava conta de uma situação semelhante àquela que os professores viveram durante a pandemia de 2020. A sobrecarga de trabalho, associada à angústia de não conseguir “alcançar” virtualmente todos os alunos, gerava desgaste.

“Pode estar a faltar determinada formação” – referia a ata. No século passado, como nos anos vinte deste século, a formação de professores estava imersa em equívocos. Sabemos, hoje, que um formador não ensina aquilo que diz; ele transmite aquilo que é. A aprendizagem é antropofágica. O aprendiz não aprende aquilo que o professor diz, mas aquilo que o professor é. O formando aprende o outro… aprende o formador. A nova formação surgiu na PROF, quando o subsistema de formação continuada foi criado, uma formação isomórfica, praxiológica, geradora de aprendizagem. 

Isomórfica, porque o modo como o professor aprende é o mesmo modo como o professor ensina. Se o formando participa de um curso sobre “metodologias ativas na sala de aula”, ele não irá desenvolver “metodologias ativas”, mas “inativas”. Se o formador “dava aula” no curso (uma modalidade de formação do século XIX), o formando iria “dar aula”. O que ficava do curso era aquilo que o formando havia vivenciado. Era o modo, a modalidade. 

A nova formação era praxiológica porque partia do fazer, para refletir. As dificuldades de ensinagem sentidas pelo professor impelia-o à pesquisa, numa dialética freiriana posta em prática, através da mediação assegurada por um formador que já havia posto em prática a teoria, que sabia fazer.

Na formação tradicional, o formador recorria ao blá, blá, blá dos teoricistas, fornecia técnicas, falava dos piagets e dos vygotskys da vida. Quando terminava o curso, o professor voltava para a sala de aula com o seu certificado. Mas o Piaget não estava lá e o Vygotsky tinha fugido. Na PROF, a formação era geradora de aprendizagem. A teoria não precedia a prática. E o professor não era considerado objeto, o “incapaz” que recebia “capacitação”. Era considerado sujeito de aprendizagem, ao serviço de um projeto assumido por uma equipe e que uma comunidade havia adotado.

Na primeira semana de agosto de 2020, centenas de educadores – professores, pais, gestores e outros agentes educativos – se inscreveram na nova formação promovida pela Ecohabitare. E o espírito da velha Associação PROF estava presente nas palavras de uma formadora:

Aqui tens a segunda’ edição do processo formativo “Aprender em Comunidade”. 

Se também és apaixonado/a pela educação, se não te conformas com o estado da educação de hoje, se queres participar na transformação da educação e não sabes como, se te inquieta o que fazem com as crianças e jovens, esta formação é para ti!

Por: José Pacheco