Fercal, 23 de maio de 2040

Más notícias recebíamos nesse agitado mês de maio. O Brasil tornara-se o segundo país com mais casos de covid-19. E a América Latina passara a ser o epicentro da pandemia.  A  interrupção de serviços sociais contribuía para o agravamento da pobreza. O fecho dos prédios das escolas, aliado à prática de ensinarem, criava situações de abandono intelectual dos alunos.

Com a amorosidade que os caracterizava, muitos professores se angustiavam, por não conseguir estabelecer contato com alunos sem acesso a uma Internet, que lhes permitisse receber as aulas online. E percebiam que, cumprindo ordens da administração escolar, votando ao abandono os restantes, contribuíam para acentuar o fosso da desigualdade social.

Numa entrega admirável e à margem das inúteis iniciativas da administração, dedicados professores conseguiam estabelecer contato com todos os alunos (sublinho: COM TODOS!). A partir daí, foram criados vínculos e construídos roteiros de estudo, que conduziram à pesquisa, em processos de auto-formação em comunidade. Acontecia aprendizagem. Sem aula. Com TODOS!

Identificadas necessidades e problemas das comunidades (fome, insalubridade e múltiplas chagas sociais), os professores ajudavam a desenvolver soluções, de modo autônomo, sustentável. Perguntareis: Como faziam isso? Como conseguiam chegar a todos os alunos? Como conseguiam esses professores garantir a todos o direito à educação? As respostas estavam inscritas num projeto, que tinha sido entregue à secretaria, anos antes. Um projeto que a secretaria votou ao ostracismo e quase destruiu.

Naquele tempo, o autor do livro “Necropolítica” nos dizia que “a expressão máxima da soberania residia (…) no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Ser soberano é definir a vida como a implantação e manifestação de poder. Logo, neste sentido, a soberania é a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é”. A administração escolar escolheu quem poderia continuar a receber aula e quem ficaria abandonado à sua sorte. Não conseguia alcançar sequer metade dos alunos e legitimava a crueldade do abandono com uma ridícula proposta de “gestão estratégica. Uma sutil corrupção afetava o funcionamento do sistema, sendo mais destrutiva do que o covid-19 – a corrupção intelectual e moral.

O documento da “Gestão Estratégica” era disso expressão, um documento sem fundamento científico e com tentativas de disfarçar essa lacuna, recorrendo à sofisticação do discurso, para disfarçar a miséria das práticas. Abusivamente, se evocava o chamado “Currículo em Movimento” – um documento orientador da política educacional – como se essa proposta alguma vez tivesse sido operacionalizada. Os autores do documento admitiam ser aquela “uma oportunidade de pensar outras práticas pedagógicas em outros espaços, com o fim de aperfeiçoar o processo de ensino e aprendizagem”. Mas os burocratas mataram a “oportunidade”.

As últimas linhas do documento de “Gestão Estratégica” disso eram prova: As atividades ofertadas (…) devem ser centradas nos estudantes. Isto é: a administração assumia (na teoria) que o centro deveria ser o aluno, mas impunha (na prática) aulas centradas no… professor. Escrever uma coisa e fazer outra seria sintoma de esquizofrenia? Talvez. Ou talvez não. Eu preferia acreditar que os autores do documento eram ignorantes das ciências da educação.

Por: José Pacheco