Goianésia, 04 de junho de 2040

Como vos disse em carta anterior, a administração do Distrito Federal ignorou a crítica construtiva de uma professora e nem sequer deu resposta a um documento, que denotava bom senso e sentido de responsabilidade. A professora tinha mais consciência da situação do que os autores do documento da “gestão não-presencial”. A sua missiva merece referência nesta cartinha. Mesmo tendo passado vinte anos, sinto ser meu dever citá-la, para que se saiba que, naquele tempo, havia educadores éticos.

A secretaria assumia que a desigualdade educacional já era uma infeliz realidade dos sistemas educacionais brasileiros e afirmava na “Gestão Estratégica” que, “mais do que criar desigualdade, o contexto de pandemia expõe de maneira mais crua tal desigualdade e afeta os diferentes estratos sociais também de forma diferente”. A autora da carta sugeria uma reflexão sobre o que estava escrito na justificativa dada pela administração educacional. Se esta reconhecia ser a desigualdade uma “infeliz realidade”, por que razão insistia num plano de gestão para atividades não presenciais, que reforçava a desigualdade social?

Coloca a Secretaria em contradição com o que está escrito neste documento. Sugiro a retirada deste tipo de citação: “Além disso, a desigualdade educacional brasileira está profundamente ligada à condição social e de raça dos estudantes”, até que a secretaria tenha de fato um plano que vise transformar realidades injustas, ao invés de reforçar e reconhecer seu fracasso.

A OCDE considera que as competências vão muito além do mero conhecimento de conteúdos, que é necessário significar e ressignificar os conteúdos. E é fundamental estabelecer relação dialógica entre família, estudantes, professores a partir de uma escuta empática.

Por sua vez, o Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) alerta que a manutenção de “prescrições curriculares, planos de aula, conteúdos e atividades” sem considerar o contexto de pandemia “é uma violência” com crianças, adolescentes, seus familiares e educadores.

Por isso e muito mais, não faz sentido que a secretaria afirme que “ao ofertar atividades pedagógicas não presenciais e validá-las, busca promover a igualdade e equidade.”

No ponto 6º, é dito que “tal readequação da oferta educacional não é apenas, um imperativo jurídico e moral, é também uma oportunidade de pensarmos outras práticas, em outros espaços, com o fim de aperfeiçoar o processo de aprendizagem.” Então, não poderemos repetir erros, levando o modelo de sala de aula para a televisão, ou para a plataforma digital. Considerar isso como inovador é um verdadeiro engano. “Inovar” requer coragem para romper com paradigmas, é retirar do papel o projeto de cada escola, os materiais de pesquisas serem desengavetados, um trabalho cientificamente pautado com objetivos definidos ser realizado, para a construção da escola que queremos.

Diante disso, volto a questionar: não seria este o momento para o “novo início”?  Existe um atraso assustador, que impede, há anos, que tenhamos um modelo de educação, que garanta o direito de todos os estudantes brasileiros.

Como vedes, havia profissionais críticos, que refletiam sobre as suas boas práticas e sobre as péssimas práticas da administração. Foram esses professores que materializaram o “novo início”. Vos contarei como foi…

Por: José Pacheco