Loulé, 14 de abril de 2041

O meu amigo Rubem dizia ter um jeito socrático de entender a educação:

 Acho que o seu objectivo é despertar nas pessoas aquilo que está adormecido dentro delas. Nós somos como palácios maravilhosos onde dormem centenas de inteligências diferentes, uma coisa parecida com a história da Bela Adormecida. A função principal do educador é dar o beijo que desperta a Bela Adormecida. Você tem de provocar para que algumas dessas inteligências acordem. Digo algumas porque nem todas podem ser despertadas, a gente não tem tempo para tudo. É isso o que a gente faz, provocar os alunos para que eles despertem as suas inteligências e possam então lidar com a vida.”

Era esse, também, o jeito dos tutores das turmas-piloto, a prática maiêutica essencial, que restituía aos aprendizes o direito de ser e de perguntar. 

Em outra cartinha, disse-vos que chegavam à Ponte e ao Âncora centenas de jovens vítimas da escola da aula. Quando lhes perguntava o que queriam saber e fazer, respondiam com outra pergunta:

“Tio, eu posso dizer o que quero saber? Eu posso dizer o que quero fazer?”

Quando lhes perguntava o que queriam ser – sem acrescentar o “quando fores grande” – um sorriso acompanhava a resposta:

“Quero ser rapper. Quero ser goleiro. Quero ser cientista….”

Projetos de vida se consolidaram. A Sofia começou a sua carreira de rapper na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O André foi campeão europeu de futebol de salão. Milhares de cientistas viram contemplados os seus talentos.

A escola instrucionista era um cemitério de vocações. O orgulho da mente racional do ego – que se manifestava através da do ceticismo – impedia os professores auleiros das aprendizagens indispensáveis à sua realização pessoal e profissional. A cultura, tecnicista reprimia o sentir, o instrucionismo atrofiava o ser, o modelo engendrado no século XIX ignorava que apenas pensar e controlar era estar doente dos sentidos.

Em 2020, o amigo Pedro Demo denunciava as péssimas condições da escola instrucionista. Dizia não existir um projeto de mudança satisfatório, parecendo que a escola que tínhamos era um modelo intocável. Num célebre texto com o título “EDUCAÇÃO À DERIVA: instrucionismo como patrimônio nacional”, escreveu:

“O sistema educacional mostra aberrações inomináveis em termos de qualidade da aprendizagem, que persistem arraigadas, não comparecendo, contudo, gesto minimamente adequado de mudança. Em especial no ensino médio (EM), o aprendizado de matemática é insignificante: foi de 9.1% em 2017; 90% dos estudantes não aprenderam; quase todos. No Enem, apenas 53 estudantes obtiveram nota máxima em redação, dentre 4 milhões de participantes; quase ninguém.”

Alheia aos trágicos indicadores e à avisada voz de Pedro Demo, a administração educacional tentava colmatar defeitos instrucionistas, injetando nas escolas “ensinos híbridos” e outras inutilidades, desperdiçando recursos e vidas. 

Albert Einstein dizia não existir um caminho lógico para descobrir as leis universais; que o único caminho era a intuição. Na Ponte, no Âncora e, mais tarde, na Escola Aberta, foi a intuição que nos guiou. 

Num tempo em que nem sequer sabíamos da existência de um Piaget, ou de uma Montessori, agimos por via do Amor e da Coragem. A intuição nos avisou de que, dando aula não ensinávamos, ou, pelo menos, não ensinavamos todos os alunos, como mandava a Constituição. O Amor nos guiou na busca de uma relação de escuta atenta… intuitiva. A Coragem nos fez transcender obstáculos e compreender que um projeto humano é sempre o projeto de um coletivo.

 

Por: José Pacheco