Gerês, 17 de abril de 2041

No abril do distante 2021, a Receita Federal divulgou um documento propondo o fim da isenção de impostos para livros, com o argumento de que pobres não consumiam livros. Segundo a Receita, os livros seriam consumidos apenas pela faixa mais rica da população (rendimento superior a 10 salários-mínimos).

Se a tributação dos livros acontecesse, poderia aumentar em 25% o preço final de um livro para o consumidor, o que comprometeria ainda mais o acesso à leitura. Deixaria os livros ainda mais caros e distantes do poder de compra da população de baixa renda. Um absurdo!

Tive um amigo que vendia livros de porta em porta. Operário têxtil, no seu “tempo livre”, ia de porta em porta, metendo conversa com eventuais compradores. Era um homem culto, com quem aprendi da sabedoria que não vem nos livros. Quando me visitava, eu parava tudo o que estivesse a fazer. E encetava longas conversas sem assunto agendado, mas que nos conduziam sempre a inesperadas reflexões.

Falava da escola dos filhos e da escola que foi sua:

“Antigamente, era muita matéria a que a gente era obrigada a aprender. Mas, vai-se a ver, pouco ficou. Fazíamos muitas cópias, mas hoje damos muitos erros ao escrever. Eu aproveito para ler os livros que vou vendendo e poupo algum dinheirinho, para poder comprar livros para os meus filhos. Porque, na aula, é o professor quem lê.”

A escola da aula raramente conseguia criar hábitos de leitura nos seus alunos. O professor palestrante não estimulava a busca de respostas, dava resposta-padrão a perguntas jamais escutadas, também era vítima do instrucionismo. Num estudo sobre literacia, apenas onze professores em cem souberam indicar o título de um livro que tinham lido nos últimos três meses. Vários confessaram que não gostavam de ler.

Compassivo, perguntei a esses meus colegas qual o livro que mais gostaram de ler. Poucos responderam. E me fizeram retroceder a uma situação dos primórdios da Ponte, quando perguntei a jovens recém-chegados qual dos livros da nossa biblioteca queriam ler. Nem um só jovem respondeu. As bibliotecas das escolas de onde tinham vindo estavam fechadas a cadeado. Só tinham lido apostilas, manuais didáticos. Perguntei a um deles:

O que queres ser? Qual é o teu sonho?”

A resposta foi o silêncio. Tinham sido proibidos de ler, de sonhar.

Quando me referi a um determinado assunto, um dos jovens, finalmente, falou:

“Eu dei isso no terceiro ano, mas já não me lembro…”

Uma frase proferida pelo vendedor de livros confirmou o que o episódio vivido com os jovens me havia ensinado. Mas, a humildade digna das suas palavras contrastava com a arrogância de muitos doutores:

“Estudei a História todinha, de ponta a ponta, mas ficou pouca coisa. Nós éramos dez irmãos e nenhum foi capaz de se agarrar aos livros. Ninguém nos dizia que podia ser diferente e a gente não adivinhava.”

Um motorista de táxi falou-me da sua infância no Nordeste. Contou-me histórias de fome e abandono. Foi empurrado da escola para o trabalho duro. Já adulto, aprendeu a ler com os que partilhavam o jornal do botequim do bairro. E se tornou um “viciado” em leitura.

Perguntou à esposa o que gostaria de ser. Ela respondeu querer ser professora, mas… que não gostava de ler. O marido a ajudou:

“A minha mulher fez o curso todo. Trazia os livros do Piaget, do Freire e de outros. Eu lia e explicava à minha mulher. Ela fez as provas e já é professora.”

O meu amigo que vendia livros de porta em porta tinha algo que o distinguia de muitos compradores: esse meu amigo lia os livros que vendia. E, porque os lia, ia preenchendo lacunas herdadas da escola da aula.

Por: José Pacheco