Vila Franca de Xira, 23 de abril de 2041

O Pedro, de que vos falei numa outra cartinha, não resistiu a me confiar um registo de impressões de uma das suas traumáticas experiências de estágio: 

“A estória que gostaria de partilhar é, como tantas outras, passada numa caixa de betão conhecida por escola. E esta era considerada “uma das melhores do país”. 

Eu antevia um futuro promissor para aquele aluno. Mas, os números, o diabo dos números!… O Carlos manifestava indiferença face aos números. “Coisa grave!”

Remetido à última carteira da sala, continuava a desenhar, recusando tentar, sequer, compreender a importância dos números. Com a Páscoa à porta, é chegada a altura das notas quase finais – “as notas que damos no segundo período são praticamente as mesmas do último” – diziam os nossos professores.

A angústia do Carlos era disfarçada por um sorriso tímido, que fazia dele “um dos alunos com melhor comportamento da turma”. O segundo período até tinha corrido bem. Com os estagiários por perto, vieram as notas positivas e um maior à-vontade do Carlos. Com o segundo período, veio também uma matéria diferente, algo de que o “Carlos” gostava e fazia tão bem ou melhor que os restantes elementos da turma: a geometria. 

Os testes foram animadores. Mas o dia de “dar as notas” foi de imensa tristeza para o “Carlos” (que “já estava habituado”) e para nós, estagiários. A memória da “nota um”, a mais baixa da escala de classificação, bem assente na pauta, povoou-me os sonhos de noites malpassadas. Afinal, eu era só um estagiário. Arrastei comigo um sentimento de impotência que ainda não me abandonou. Quando da última vez que falei com “Carlos”, o fantasma da reprovação levava-o a considerar a hipótese do abandono da escola.” 

O Pedro apercebeu-se da tragédia. Mas quantos milhares de Pedros passaram insensíveis ao largo dos pequenos dramas que compunham o imenso drama de uma carreira feita de indiferença? Quantos milhares de Pedros morreram profissionalmente aos vinte e apenas foram enterrados quando chegaram aos sessenta? Foram muitos os novos professores a quem a vida roubou os sonhos. Foram muitos mais aqueles que, desfeito o idílio, o enamoramento dos inícios, desertaram. 

Se alguém crê que eu pretendo afirmar a falência da formação inicial dos idos de vinte, se houver quem pense que eu insinuo termos vivido uma tragédia criminosamente silenciada, engana-se. Eu afirmo! 

Nesse tempo, os ministérios da educação de países onde a covid estava praticamente debelada desistiam do retorno a aulas presenciais. No Brasil, professores conscientes apelavam à greve, quando interesses mesquinhos, particulares, pressionavam a “reabertura das escolas”. No Brasil anestesiado por negacionismos vários do pico da pandemia, se ignorava as recomendações de infectologistas e da sociedade médica em geral, no sentido de evitar aglomerações em sala de aula, por serem propícias ao contágio. 

Parecia que o povo brasileiro não compreendera a mensagem do vírus. Empurrava os seus filhos para o retorno à mesmice de uma escola que, indiretamente, ajudara a instalar o caos, pois nem sequer ensinara os seus alunos a… lavar as mãos.

Durante a pandemia, professores ficaram sem salário. Crianças passaram por crises de ansiedade. Adolescentes contraíram novas formas de pânico. A saúde mental dos pais se deteriorou. Uma sociedade doente esgotara energias e clamava pela “volta às aulas”. O negacionismo pedagógico exigia o regresso ao local do crime, onde o talento do Carlos tinha sido roubado, o retorno ao inferno onde a vida profissional do Pedro se fez em cinzas.

 

Por: José Pacheco