Aljezur, 13 de maio de 2041

No Brasil, 13 de maio é comemoração da publicação da Lei Áurea, aquela que “libertou” os escravos. Em Portugal, nesse dia, são evocados os milagres testemunhados por três pastorzinhos, na Cova da Iria. 

A escravidão no Brasil foi uma instituição violenta, desumana, que durou mais de trezentos anos. No mês de maio de 2021, sinais de escravagismo ainda persistiam no tecido social. E se faziam sentir no contexto de uma educação, que contribuía para os reproduzir. 

Já tínhamos tentado tudo o que era possível e até o impossível, para libertar os professores de um sistema educacional abominável. Restava-nos ir além da Lei Áurea, ou rezar, apelar a que a Senhora de Fátima se dignasse fazer um milagre.

No mês de maio de há vinte anos, percorri os lugares onde hoje me encontro. Professores, autarcas, famílias, comunidades despertavam de um “longo sono”, melhor dizendo, de um “pesadelo”. Quando já me preparava para descansar, essa boa gente me levou a Portugal e me fez acreditar que a “educação do futuro” se faria presente.

No Alentejo, visitei escolas, convivi – presencialmente, máscara no rosto, mãos desinfetadas – com alunos, com professores, com comunidades. Participei de encontros virtuais, de que resultaram reconfortantes mensagens:

“Boa noite, Professor José! Estive a assistir à sua exposição no webinar, e agradeço a sua partilha. Não sou professora, sou mãe de uma criança que frequenta o 4º ano.

Desde que o meu filho ingressou na escola, e uma vez que eu não tinha conhecimento sobre o processo de ensino, senti uma grande tristeza e desilusão pelos moldes do nosso ensino. As crianças não podem ser felizes neste sistema, é-lhes castrada a autonomia e a curiosidade natural. São bombardeados diariamente com programas extensos a que chamam de aprendizagens, mas que de aprendizagens não têm nada. Costumo dizer que não é a escola que se vai adaptar ao meu filho, mas sim o meu pequeno ser é que tem de se adaptar à escola. 

Gostava de fazer parte da mudança, por um mundo melhor, pelas nossas crianças. Muito obrigada. Vanessa”.

“Boa noite, Professor Pacheco! Fiquei de coração cheio com a sua partilha, que me fez recordar a minha formação inicial no Magistério Primário de Beja. E fiquei triste com tudo aquilo que fui perdendo ao longo dos meus 36 anos como professor. Gostava de ter a oportunidade de o voltar a escutar numa das suas quartas-feiras. Os melhores cumprimentos. Jorge”.

“Professor, começo por agradecer as palavras inspiradoras desta tarde e o convite para fazer parte do projeto que persiste em semear em terras lusas e por esse mundo fora. Conto reunir alguns professores que gostam de trabalhar comigo em projetos disruptivos. 

As escolas precisam enfrentar a mudança e sobretudo os alunos merecem encontrar, no espaço em que mais tempo passam, projetos significativos para a vida de cada um, e professores motivados, que não se esgotem em tarefas e avaliações que servem o sistema. 

Conto desde já com toda a burocracia do sistema que tão bem conhece. Contudo, espero que as raízes possam brotar em solo tão formatado, para fazer como viram fazer. 

Como sou professora de Tecnologias de Informação e Comunicação, estou habituada a formatar e instalar novo software sempre que necessário e sobretudo sempre que ele serve para facilitar o aprender a ser de cada um. Sinta-se, pois, à vontade para partilhar um pouco das suas palavras no formato e língua que entender. E o dr. google ajuda, se necessário.

Votos de uma excelente estadia e muita energia para continuar a ser um jardineiro de excelência. Abraço fraterno! Paula”.

Por: José Pacheco