Odemira, 15 de maio de 2041

No intervalo de um congresso, a organização pediu-me ajuda:

“Professor Pacheco, o seu amigo António Nóvoa vai fazer a palestra seguinte e disse que precisava de um rato. Para que é que ele precisa de um rato? Já só faltam dez minutos para começar a palestra. Pode ajudar-nos?”

Eu ajudei. Expliquei que o “rato” português, que o António pedira, era o “mousse” brasileiro.

Ao longo do tempo, me apercebi de que muitas palavras faladas em Portugal tinham significado diferente no Brasil. Nos meus primeiros tempos brasileiros, sem o saber, disse muitas besteiras. Respondi nestes termos a uma pergunta sobre os alunos da Ponte:

“Os nossos alunos são putos responsáveis, solidários”.

Não entendi a agitação com que o público reagiu à minha resposta. Em Portugal, a palavra “puto” designa o “guri”, é uma palavra de forte cunho poético. “São como bandos de pardais à solta os putos” – cantava o Ary poeta.

Em outro evento, eu disse que “pagava propina” e que as professoras da Ponte eram “raparigas” muito dedicadas ao projeto. Em Portugal, “propina” é o que se paga para frequentar um curso universitário. “Rapariga” é o equivalente de moça, no Brasil.

Involuntariamente, muitos equívocos provoquei. Antes de elaborar uma lista de palavras proibidas, armei confusão em Araraquara. Parti de Portugal num mês de julho particularmente quente. Viajei para o Brasil vestido com roupa leve. No final daquela tarde, um friozinho me fez procurar uma loja e pedir… “uma camisola”.

“Para quem é a camisola?”

“É para mim” – respondi. Imaginai a reação dos interlocutores.

Resta acrescentar que, em Portugal, camisola é um agasalho de Inverno.

No dia seguinte a uma conferência realizada perto da escola em que o vosso pai trabalhava, um professor encontrou-o e lhe disse que ouvira um professor falar de um projeto, mas que o que ele dissera “era tudo teoria”.

“Ele era Pacheco, como tu. Falou de uma tal Escola da Ponte, em que não havia aula. Pode lá ser! Essa escola não existe!”

“Existe” – respondeu o André – “E eu estudei lá. Esse professor é meu pai.”

Imagino que este episódio se possa ter repetido em muitos outros lugares, onde não havia quem testemunhasse a existência da Ponte. Por outro lado, acredito que eu possa não ter sido eficiente na comunicação. Por vezes, a linguagem é fonte de mal-entendidos.

O ano letivo começaria na semana seguinte. Uma reorganização curricular fora aprovada fora de tempo, era intensa a azáfama de editores e livreiros, mas os novos manuais ainda não tinham chegado às escolas. Duas semanas decorridas sobre o início do ano letivo, escutei o seguinte diálogo, na sala dos professores:

“Ó colega, não se enganou a escrever o sumário da aula?”

“Claro que não!”

“Mas, essa matéria já não consta do novo currículo”.

“Não importa. Enquanto não me derem o novo manual, eu dou aula por este.”

Netos queridos, juro que foi isto o que eu escutei. Muitos professores mantinham-se acomodados, apáticos, cativos de vícios instrucionistas. Revelava-se difícil dialogar, fundamentando o diálogo em teoria praticada. Nem adiantava que eu dissesse que aquilo que eu referia era descrição de uma prática.

“Isso é tudo teoria, caro colega!” – era o comentário habitual.

Cheguei a essa escola bem no final de uma reunião de pais e professores.

“Então, foi boa a reunião?” – perguntei a quem saía.

“Foi boa, sim. Os professores falaram muito bem.”

“Sobre o que falaram?”

“Isso eu não sei. Não entendi nada do que elas disseram”.

As professoras tinham falado de “diferenças entre paradigmas”. E explicado aos pais o que era uma “reorganização curricular”.

Por: José Pacheco