Analisando alguns números

Deixa eu contar uma coisa que nem todos sabem. Os dados que vou mostrar são do INEP em um censo feito em 2018 (dados oficiais e bem atuais) e de outros sites. Todas as fontes estão no fim do post.

Quantas vagas em cursos de graduação foram ofertadas em universidades públicas (federais, estaduais e municipais)?
R: 835 mil vagas

Quantas vagas foram ofertadas em universidades particulares?
R: 12 milhões

Por aqui nós já vemos como o país investe na privatização da educação. Das 13,5 milhões de vagas, 12 milhões são pagas.

Quantos alunos ingressaram em 2018 em cursos superiores de graduação no Brasil?
R: 3,4 milhões.

Ou seja, 10 milhões de vagas não foram ocupadas!
Mas a coisa não é tão simples. 83,1% dessas vagas ocupadas foram em universidades PRIVADAS! Isso significa que das 3,4 milhões de vagas, 2,8 milhões foram pagas. Somente 600 mil vagas das 835 mil disponíveis em instituições públicas foram ocupadas. 235 mil vagas não foram usadas…

Ainda tem mais…

Entre 2008 e 2018 a rede de ensino superior PRIVADO cresceu 59% e a rede pública, 7,9%. O interesse em capitalizar o ensino superior é grande e podemos ver isso de forma clara.

Agora a bomba…

Quantos universitários concluíram a graduação em 2018?
R: 1,2 milhão de universitários, sendo 1 milhão em universidades privadas e pouco mais de 200 mil em universidades públicas.

Só para apresentar mais um dado, o Brasil tem cerca de 8 milhões de alunos matriculados no Ensino Médio, sendo 5,6 milhões em escolas públicas. Vamos concatenar tudo o que vimos até aqui?

‣ 8 milhões de estudantes brasileiros terminam o ensino médio.

‣ 6,7 milhões de pessoas se inscrevem no ENEM (contando aqueles que concluíram em 2017 e aqueles que estão tentando de novo o vestibular).

‣ 13,5 millhões de vagas são ofertadas nas universidades

‣ 3,4 milhões de alunos conseguem entrar nas universidades.

‣ 1,2 milhões de universitários se formam nos cursos de graduação

Onde foram parar os outros 2,2 milhões de universitários que não se formaram? O que foram fazer aqueles que não conseguiram vaga nas universidades? O que se deu com a vida daqueles que nem mesmo concluíram o ensino médio (4 de cada 10 jovens de 19 anos não concluíram o ensino médio)?

Agora pensemos um pouco… O que é que se faz na escola? Desde o ensino fundamental 1 as crianças são preparadas para passarem em concursos para boas escolas no fundamental 2. Quando concluem essa segunda etapa, os jovens batalham em concursos por vagas de ensino médio em escolas boas. Quando terminam o ensino médio, os jovens lutam por uma vaga nas universidades. De cada 8 estudantes que terminam o ensino médio, somente 1 conclui o ensino superior. E os outros 7?

Afinal a educação é um eterno curso preparatório para pegar as melhores vagas através de provas? Será que a educação serve para isso? Nossa sociedade tem utilizado os primeiros 18 anos de vida da nossa espécie para preparar aqueles que poderão ter em suas mãos um diploma universitário. E os outros?

A educação não deveria ser para todos? Se a maioria não ingressa e nem conclui o ensino superior, por que as escolas focam tanto nos conteúdos preparatórios para o ensino superior? Se em uma turma de 30 alunos, somente 3 ou 4 irão efetivamente ter um diploma de ensino superior, não faz o menor sentido direcionar a educação para um formato de preparação para provas.

– Mas André Luís, então você é contra o ingresso nas universidades?

Não. O problema é mais profundo.

As escolas adoram mostrar quantos de seus alunos passam em concursos. Esse marketing é pesado e os pais enxergam isso como uma espécie de garantia de qualidade pedagógica dessas escolas. Contudo, a realidade, meus amigos, é que de 6,7 milhões de alunos, apenas 600 mil CONSEGUEM ingressar nas universidades públicas. Significa que 6 milhões nem mesmo CONSEGUEM passar em uma prova de vestibular.

Isso é um sinal da qualidade da educação no nosso país. As escolas não se preocupam em educar, mas apenas ensinar e NEM MESMO ISSO CONSEGUEM.

O que diz a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional sobre o papel da educação?

‣ Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.
§ 2o A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social.

‣ Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

‣ Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensa- mento, a arte e o saber;
III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas;
IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância;
VII – valorização do profissional da educação escolar;
IX – garantia de padrão de qualidade;
X – valorização da experiência extraescolar;
XI – vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.

Chegamos à conclusão de que a enorme maioria das escolas nem sequer cumpre a lei máxima da educação. Enquanto gastam tempo e energia para que os alunos saibam fazer provas, a educação, no sentido mais amplo e LEGAL, é deixada de lado.

O Brasil ficou em 57º lugar no PISA em 2019. Dois terços dos brasileiros de 15 anos sabem menos que o básico de matemática. De cada 5 universitários, apenas 1 é plenamente alfabetizado.

– Mas, André Luís, você mesmo já deu a justificativa para a péssima qualidade da educação brasileira: a falta de investimento!

Há 40 anos um grupo de 3 professores de uma escola pública no interior de Portugal decidiu construir uma educação ética e comprometida com o desenvolvimento dos alunos. Essa escola recebia os alunos que eram expulsos e retirados das outras escolas por serem “problemáticos”. Não, a escola não recebia mais dinheiro do que as outras. O que mudou foi a vontade dos professores, a participação das famílias e a autonomia dos alunos. Eles aboliram as aulas, as turmas, as provas e passaram a trabalhar de forma diferente do que vemos na maioria das escolas brasileiras. Em 2013 a Escola da Ponte recebeu avaliação MUITO BOM em todos os critérios analisados pela IGEC (Inspeção-Geral da Educação e Ciência). O relatório pode ser acessado no link https://www.igec.mec.pt/…/AEE…/AEE_2013_EB_Ponte_R.pdf.

O que falta no Brasil? A legislação já permite que as escolas tenham autonomia para trabalharem de forma diferente. O que falta? Por que insistimos neste modelo?

Pais… Mães… Quando a pandemia passar, entrem nas escolas dos seus filhos e digam:

– Eu não quero mais aulas e provas! Tentem alguma coisa diferente! ISSO NÃO ESTÁ DANDO CERTO!

Falem com os professores, apoiem os professores, falem com os diretores! Cobrem que haja MUDANÇA nas escolas! Os professores precisam que as famílias queiram uma educação diferente! Não dá mais para continuar com aulas e provas como há mais cem anos é feito. Pressionem as escolas a mudarem seus modelos! Façam uma revolução na educação brasileira! Nossos filhos MERECEM uma educação de qualidade e isso é possível AGORA!! VIVA A EDUCAÇÃO!

Por: André Luis Corrêa

FONTES:
http://download.inep.gov.br/…/censo_da_educacao…

https://g1.globo.com/…/quase-4-em-cada-10-jovens-de-19…

http://portal.inep.gov.br/…/enem-2018-tem-6-7…/21206….

https://g1.globo.com/…/brasil-cai-em-ranking-mundial-de…

https://noticias.r7.com/…/universidade-so-15-dos…

https://www.igec.mec.pt/…/AEE…/AEE_2013_EB_Ponte_R.pdf