Ribeirão Bonito, 10 de outubro de 2040

Em outubro, já não eram apenas as escolas de samba, que adiavam aglomerações. Em São Paulo, o governador anunciava que o retorno à escola era opcional, tanto para as escolas quanto para os estudantes, e valia para as redes estadual, municipal e privada. E, em 2020, em municípios como Viçosa, nem sequer se optaria pelo regresso ao prédio da escola. A Secretaria Municipal de Educação apenas pretendia entregar materiais para trabalhos remotos, tanto para os alunos da educação infantil quanto para os do ensino fundamental.

Viçosa estava “na onda verde do Programa Minas Consciente e poderia alinhar-se ao governo do estado e aderir ao retorno gradativo” ao presencial, garantindo cuidados sanitários específicos. A secretaria aplicara um questionário junto às famílias e 70% dos pais eram contrários à retomada.

Havia gente consciente, nesse tempo de incúria. Mas, nesse outubro de 2020, enquanto o município de Viçosa salvaguardava a saúde e o direito à vida dos seus professores e alunos, decretos autorizavam aulas presenciais na rede privada de outros municípios.

Era deveras interessante a estratégia de Viçosa. Na área urbana, o material era disponibilizado em pontos de entrega, de forma a não gerar aglomeração. Na zona rural, era entregue nos pontos onde, antes da pandemia, o transporte apanhava os alunos para os levar ao prédio da escola. Viçosa apenas pecava por não ir mais além… ao encontro do pensamento de Anísio Teixeira, que recomendava: “fazer escolas nas proximidades das áreas residenciais, para que as crianças não precisassem andar muito para alcançá-las (…) atividades na biblioteca, nas quadras de esporte (…) reorganizando os tempos”.

Anísio sabia que a delimitação do território educativo não era apenas uma questão de natureza geográfica: “O estudante não é só da professora ou da escola, e sim da rede, da Cidade (…) em praças, clubes, cinemas, comércio local, teatro (…)”. E concluía: “o aumento do tempo de estudo deve vir acompanhado da ampliação do acesso dos estudantes aos espaços múltiplos para apropriação da cidade e de seus saberes”.

Não se tratava de deslocar a atividade escolar para outros espaços, escolarizando ainda mais a família e a sociedade, mas de desenvolver a percepção dos territórios como elementos educadores, por meio dos quais se aprendia, participando de transformações pessoais e sociais. Mas, a escola dos anos vinte deste século permanecia socialmente isolada, fundada em estranhos rituais, contraditórios hábitos, jamais questionados.

Por exemplo, nela havia hierarquia até no defecar e urinar. Por que razão, na escola da aula, se mantinha banheiros de alunos separados de banheiros de professores. Nos lares, haveria banheiro de pai separado de banheiro de filho? Quando visitava escolas, observava que o banheiro do aluno não tinha tampa no vaso, nem papel higiénico. O do professor já tinha tampa e papel e até espelho. O banheiro da direção tinha isso tudo e até ar-condicionado.

Em 2020, urgia um re-ligare família-sociedade-escola. Por que não considerar as escolas como espaços públicos, nodos de redes comunitárias, devolvendo as escolas às comunidades, na partilha da responsabilidade de educar?

Entre a escola, a habitação, a associação cultural, a biblioteca pública, o local de trabalho, seria necessário estabelecer uma corrente de interação humana capaz de dar sentido ao quotidiano das pessoas e, assim, influenciar positivamente as suas trajetórias de vida. O Mestre Lauro isso propunha, já na década de… sessenta.

Por: José Pacheco