Mogi Mirim, 11 de outubro de 2040

Em meados de outubro do distante 2020, o Brasil ultrapassava os cinco milhões de casos de covid-19 e registrava mais de cento e cinquenta mil óbitos causados pela pandemia. Quando a Europa pensava estar liberta da pandemia, eis que o vírus regressa em nova vaga e novas versões. Havia notícia de que, na cidade do Porto, muitos estudantes universitários tinham sido infetados. Governos apelavam ao “cumprimento de regras, para evitar situações dramáticas”. O governador de Nova York mandou fechar escolas: “Eu não vou recomendar ou permitir que qualquer família mande seu filho para uma escola onde eu não mandaria os meus”.

Havia uma tendência crescente dos indicadores epidemiológicos. O plano para os próximos tempos assentava na responsabilidade individual. E em boas mãos estavam os conselhos que representavam as escolas de São Paulo, pois rejeitavam reabrir as escolas. Mas, uma mãe queixava-se de que o limite horário estabelecido pela prefeitura para a permanência das crianças nas unidades não atendia à demanda das famílias:

“Eu ainda moro perto da escola, mas, a maioria das famílias, vem de longe. São mães que demoram mais de uma hora de ônibus para chegar aqui com os filhos. Elas optaram pela unidade por ser próxima ao trabalho, como elas fariam com a opção de só deixar as crianças por duas horas?”

Famílias, escolas e sociedade permaneciam de costas voltadas, crentes de que escolas eram prédios. E, para minha (desagradável) surpresa, apercebi-me de que quase todos os educadores desconheciam as propostas do Lauro. Na década sessenta. Lauro de Oliveira Lima escrevia:

“A expressão “escola de comunidade” procura significar o desenquistamento isolacionista da escola tradicional. Escola, no futuro, será um centro comunitário propulsor das equilibrações sincrônicas e diacrônicas do grupo social a que serve. Não só a escola utilizará como instrumento “escolar” o equipamento coletivo, como a comunidade utilizará o local da escola como centro de atividade. […] a escola não se reduzirá a um lugar fixo murado.

Num primeiro rascunho do primeiro livro publicado no mundo sobre comunidades de aprendizagem – três décadas antes da proposta do Ramon – Lauro afirmava ser necessário:

Misturar adultos e adolescentes (…) usar a capacidade ociosa da escola (…) equipamentos coletivos (…) criação coletiva (…) verificar os tipos de atividades existentes na comunidade (…) escola de comunidade”.

No Rio de Janeiro, no outubro dos idos de vinte, as UTIs estavam cheias, mas aconteciam casamentos e shows pela cidade. A tragédia anunciada prolongava-se. E outras tragédias se sucediam, em tempos de incúria. À destruição do Pantanal e da Amazônia juntava-se um Incêndio na Chapada dos Veadeiros, que devastou a vegetação do Parque Nacional a da Área de Proteção Ambiental.

Nesse fatídico outubro, em protesto, em outro fogo se imolou uma jornalista russa: “Culpem a Rússia pela minha morte” – deixou escrito.

Irina suicidou-se, colocando-se em chamas, em frente a uma esquadra de polícia. O que levaria uma jovem a acabar com vida? Por que aumentava o número de casos de suicídio juvenil? Por quê o voyeurismo das redes sociais, que replicavam um vídeo, que mostrava Irina a incendiar-se e um homem a tentar apagar as chamas, perante resistência da jornalista, sentada num banco de jardim?

Pessoas fizeram uma vigília em memória de Irina, com um homem a segurar um cartaz que dizia “o Estado mata”. O coronavírus talvez viesse para mostrar que a sociedade estava doente, muito doente.

Por: José Pacheco