Curitiba, agosto de 2039

Há cerca de vinte anos, li esta notícia: Vestibular na Índia levou 23 jovens ao suicídio.

Venkatesh lutava para segurar as lágrimas, enquanto tirava a carteira para mostrar a foto da irmã. Em 18 de abril de 2019, o dia em que ela descobriu que tinha sido reprovada no vestibular, Thota, de 18 anos, se matou.

Vennela tomou veneno. Chorando, a sua mãe lembrava: Ela continuava repetindo: “como eu pude falhar?”

A competição para entrar no ensino superior na Índia era feroz. E os exames eram cruciais para garantir um lugar em boas universidades, que eram vistas como um caminho seguro rumo a um emprego bem remunerado.

Assim se despedia uma das jovens suicidas: Eu só queria fazer as coisas certas, mas é como se eu fosse uma completa incapaz. eu choro por todas as músicas, livros e filmes q eu amo e q nunca mais vou ver. eu sinto muito, eu sinto mt deixar vcs. eu odeio viver, é só isso.

Não era apenas na Índia que o drama se desenrolava: o dia de volta às aulas era o que mais tinha suicídio de jovens no Japão. De 1972 a 2013, 131 alunos em média tiraram a vida no dia 1º de setembro.

No mesmo ano, a notícia encimada por esta frase denunciava uma muralha de silêncio: Mais uma aluna da UnB tira a própria vida. A estudante era extremamente simpática, muito inteligente, uma pessoa querida, tomou um uma overdose de comprimidos.
Naquele tempo, os professores do Ensino Superior queixavam-se dos baixos índices de proficiência dos alunos do ensino “inferior”. O Ensino Secundário projetava a culpa no Básico. O Básico atirava culpas para a Educação Infantil, que responsabilizava as famílias, não podendo as famílias responsabilizar o Criador…

O exame de acesso à universidade era mero instrumento de darwinismo social e de morte. Já, então, era tempo de trocar um ensino pretensamente superior (superior em quê?) por uma aprendizagem igualitária. Mas ainda levaria muito tempo e muita morte até que esse inútil e nefasto exame fosse erradicado.

Felizmente, há cerca de duas décadas, uma nova geração surgia, cuidada por seres humanos sensíveis, capazes de buscarem a perfeição possível e que viam com olhos que veem muito para além da aparência das coisas. Assim escrevia a Amanda no seu facebook (um dia, vos explicarei o que era uma “rede social”):

Ontem ganhei o meu melhor presente. Meu afilhado nasceu e tive a honra de poder participar e registrar essa chegada tão pura e emocionante. De longe, o momento mais sublime que já presenciei. Te apresento o mundo, Lucas. Com todo meu amor, te recebo de braços e coração abertos, para cumprir meu papel de madrinha da maneira mais singular que puder! Te desejo um feliz início de ciclo, recheado de conquistas e alegrias. Que você desfrute de todas as doçuras da vida, aprenda com os tropeços e jamais tenha medo de sonhar e voar alto. Para tudo, estarei aqui. Te guiando e protegendo, entre erros e acertos, mas acima de tudo, te amando incondicionalmente.

A modernidade remetera-nos para uma ética individualista. Mas, seres sensíveis como a Amanda ajudaram educadores a exercitar a consideração positiva incondicional, de que falava Carl Rogers, a praticar a confirmação do Martin Buber e o amor incondicional postulado pela Alice Miller. O Lucas está na universidade, sem passar por inúteis e nefastas provações, pois, há já muito tempo, os vestibulares foram extintos.

Com Amor, o vosso avô José.

Por: José Pacheco