Santa Comba, janeiro de 2040

Enquanto estivermos vivos, é nosso dever falar aos que não eram nascidos, para que saibam até onde se pode chegar – palavras de Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz.

Um psiquiatra holandês, que assistiu à libertação do campo da morte dizia ser preciso anotar, “para todos ficarem a saber e nunca mais acontecer”.  E fez-se necessário contar e recontar o terror, há vinte anos, quando contornos de novas inquisições e ditaduras ressurgiam. Duas décadas atrás, quando a extrema-direita e o populismo aumentavam a sua influência, citando Goebbels, negando o desastre climático e as câmaras de gás, foi necessário refrescar memórias.

Auschwitz aconteceu numa Europa supostamente culta, humanizada, mas que sucumbiu numa orgia de violência e desintegração humana sem precedentes. Primo Levi sobreviveu a Auschwitz, mas não resistiu à recordação de horrores e se suicidou. O seu último livro – “Os que Sucumbem e os que se Salvam” – reflete o temor de que tudo viesse a repetir-se.

Após a segunda guerra mundial, os Estados Unidos lançaram um projeto de reconstrução e de reestruturação econômica de países europeus: o chamado Plano Marshall. Mas, por se ter aliado a Hitler, Mussolini e Franco, o ditador Salazar privou o seu país dessa preciosa ajuda.

Nasci, exatamente, seis anos após o primeiro dia do pós-guerra e a meio dos quarenta e oito anos da ditadura de Salazar. Passando pela terra onde nasceu o ditador (Santa Comba), dolorosas recordações me assaltaram: as fomes infligidas aos vossos trisavôs, a injusta prisão do vosso bisavô, os maus-tratos por que passou a geração deste vosso avô.

Na escola do tempo de ditadura, o professor enchia-nos de pontapés, socos na cara e, pegando-nos pelos cabelos, batia a nossa cabeça contra o quadro negro. Nos idos de sessenta, conheci um professor que distribuía tapas pelas razões mais comezinhas. Mas do que ele gostava mesmo era da cruel “chamada ao quadro”. Quando o “Senhor Engenheiro” – ele não permitia que o tratassem por professor e nisso estava certo – sadicamente acariciava a caderneta dos alunos e a abria numa página ao acaso, um silêncio tumular prenunciava a tormenta – quem seria a vítima do dia? O suspense era quebrado, quando um nome era pronunciado e muitos suspiros de alívio se ouviam em surdina.  “Fulano de tal! Ao quadro! Já!” – E o fulano lá ia, como ovelha para a degola.

O Dimas fazia parte do grupo dos mártires. Já havia sido contemplado com humilhações, que lhe deterioraram a auto-estima de jovem com quinze anos feitos.

Naquele dia, o “Engenheiro” estava mais carrancudo que o habitual. As tábuas do estrado rangeram de um modo mais tenebroso que o habitual. Os momentos que precederam o momento fatal pareceram ainda mais longos que o habitual. O “Engenheiro” apoiou os cotovelos na secretária e os seus dedos passearam pelas páginas da caderneta. A sua voz saiu mais cavernosa que o habitual. Mas o que era habitual não aconteceu.

O Dimas escutou o seu nome, mas não se levantou. Ouvimos um gotejar semelhante ao da chuva no telhado. Mas, lá fora, o dia estava solarengo. Era o Dimas, sentado na sua carteira, hirto… urinando.

 

Por: José Pacheco