Vila Nova de Gaia, outubro de 2040,

Netos queridos,

Hoje, falar-vos-ei de um burro muito especial…

Na falta da generosidade do Homem, o Manel Pândego aproveitava a generosidade da Natureza-Mãe para atestar a pança do burro, motor do seu carrinho de ganha-pão. Ao fim da tarde, espetava uma estaca entre as ervas, onde atava uma corda que poucas largas dava ao animal.

Procurando dar tempo à terra para que novos tufos verdes despontassem, talvez sem o saber, o Manel Pândego aplicava uma das leis básicas da Economia, promovia um desenvolvimento sustentado à escala do universo do burrico. Mas a alimária não lhe ficava atrás em esperteza, que nestas coisas da Economia e do Desenvolvimento, os ditos irracionais dão, muitas vezes, lições aos que, por terem nascido homens e não asnos, se julgam mais inteligentes.

A lógica do senhor Manuel era a de que, através da rotatividade do pasto, a erva em redor teria tempo para voltar a despontar. Enganava-se. No seu afã de sobreviver, o burro desenhava círculos concêntricos em torno da estaca, deixando rasa a verdura, indo tão longe quanto lhe era permitido. E, logo que o senhor Manuel virava as costas ao animal, na falta de um relvado a sério, a criançada ocupava o terreno ao lado, no “muda aos três e acaba aos seis”.

Quando a bola ia fora, o jogador encarregado do lançamento de linha lateral nunca perdia a oportunidade de sacar de um seixo e mirar no pobre do burro, para o afastar da linha limite da grande área. Por via da desleal concorrência, o pobre do burro via-se confinado à meia-lua e a uma consequente redução drástica da ração diária.

O Pedro era um dos matulões da equipa. Lançamento que fizesse para o molho de jogadores junto à baliza adversária, se desviado a tempo, era golo certo. Mas o burro estorvava-lhe a corrida de balanço. Naquele dia, antes que a chuva aparecesse, já o animal tinha sido mimoseado com uma chuva de pedrinhas de impacto certeiro e eficaz.

A partida foi interrompida aos quatro a três, devido à forte carga de água que se abateu sobre o improvisado estádio. Os jogadores ainda aguentaram as primeiras pingas, mas a bátega engrossou e as equipas regressaram ao balneário que, o mesmo é dizer, ao alpendre da escola.

Só a pretexto da debandada, o animal procedeu a uma breve e pacífica “invasão de campo”. Mas a chuva amainou e eis que regressavam as equipas ao terreno de jogo com o Pedro à frente do magote.

Em escassos segundos, o burro – que era paciente mas não era estúpido – tinha-se desviado do caminho de acesso ao “balneário”. Pastava junto à linha de fundo com a corda frouxa e rente à terra. À passagem de um Pedro em imparável correria, o burro do esticou o pescoço e a corda surgiu súbita e incontornável, a três palmos da grama. O Pedro ainda ensaiou um salto acompanhado de um golpe de rins, mas acabou por aterrar de cabeça junto à marca de grande penalidade.

Terá o burro agido por receio de atropelamento? Terá esticado a corda por instinto? Por burrice? Não creio.

Diz-se dos burros que são pacientes. Mas, na minha opinião, com aquele súbito puxão, o burro do Manel Pândego quis mostrar ao Pedro um cartão amarelo. Ou (para escapar à gíria futebolística) fez ver ao Pedro que, disciplinarmente, há momentos em que a corda estica…

Num breve parêntesis, faça-se a moral implícita na parábola: que até os burros percebem a diferença entre autoritarismo e autoridade e sabem quando esta deve ser exercida; que, no domínio dos afectos, mais vale um burro sensível e atento que muitos manuais de formação pessoal e social.

Com amor, o avô Zé.

Por: José Pacheco