Planaltina, setembro de 2019

Naquele recuado tempo, a nossa escola acolhia todos aqueles que outras escolas rejeitavam. Chegavam “desmotivados”, violentados. Certo dia, chegaram mais dois jovens, que as escolas da região diziam não saber como ensinar.

O mais velho agredia-se com auto-mutilação. O seu corpo era todo uma cicatriz.

Não demorou a procurar um objeto cortante. Dirigiu-se à cozinha, mas não conseguiu pegar a faca, que viu em cima da banca. A “comissão de ajuda” estava atenta.

Sempre que algum “aluno difícil” (como os designavam) aportava àquela espécie de hospital das almas, um grupo de alunos se voluntariava para constituir uma “comissão de ajuda”. Era o valor solidariedade posto em ação…

Irritado, por não poder cortar-se, foi até ao banheiro e urinou no cesto do lixo.

No dia seguinte, havia reunião de assembleia. Lá estava o novo aluno, rodeado pelos colegas da “comissão”, olhando à sua volta, sem saber o que se passava. Era a primeira vez que participava da assembleia.

O Pedro foi o primeiro a pedir a palavra. E disse:

Amigos, nesta semana, um de nós urinou no cesto do lixo.

O novo aluno sobressaltou-se. Iriam acusá-lo? Castigá-lo? Todo mundo sabia ter sido ele o autor da façanha. Olhou à sua volta. Ninguém olhou para ele. E o Pedro continuou:

Quem pode ajudar um de nós a não voltar a fazer isso?

Toda assembleia ergueu o braço. O novo aluno, também. Compreendeu que ninguém o iria acusar, ou punir. Estavam ali para o ajudar. Ele era “um de nós”.
O mais novo dos recém-chegados vinha acompanhado pela mãe:

Ó senhor professor, tenha cuidado! O meu filho morde em todo mundo. Ele foi expulso da outra escola, porque mordia os colegas e até mordeu a mão da professora. Ela até teve de ir ao hospital…

Fique tranquila, minha senhora. Isso não irá acontecer aqui – repliquei.

Ai, vai, vai, senhor professor! Estou muito preocupada, não vá ser expulso pela terceira escola…

Sim – respondeu a mãe do mordedor – o meu filho já foi expulso duas vezes. Já não sei o que mais posso fazer por ele. Nem a psicóloga pode ajudá-lo.

A meio da manhã, quis saber do recém-chegado. As crianças disseram-me para falar com o André.

O André, 15 anos de vida de filho de prostituta, um metro e oitenta, tinha chegado à Ponte meio ano antes. Havia deixado um professor em estado de coma, na escola de origem. Mas já era um ser humano maravilhoso, como todos os seres a quem é dada a oportunidade de ser.

Então, André, disseram-me que cuidaste do nosso novo aluno.

É, professor. Ele andava para aí, feito bobinho, tentando morder todo mundo. Chamei-o. Mandei-o sentar-se junto de mim e falei-lhe ao coração.

E como foi? O que lhe disseste

Disse-lhe que não poderia fazer aquilo. Que eu era pior do que ele, quando vim para cá, mas que agora sou um homem, que respeito os outros e os ajudo

E então…?

Então, professor? Mal acabo de lhe explicar como somos, ele pegou-me na mão, para me morder?

E então…?

Então, professor? O senhor desculpe, mas acertei-lhe um tapa. Ele tremeu, deitou uma lagriminha. Eu puxei-o para mim, dei-lhe um abraço. E perguntei:

Vamos ser amigos? Ele disse que sim. E vais voltar a morder? Ele disse que não. Está resolvido, professor.

Não aprovei o tapa. Mas que foi um tapa amoroso, lá isso foi.

Recebei o amoroso abraço do vosso avô Zé.

Por: José Pacheco