Óbidos, junho de 2040,

Hoje, consegui pôr a funcionar um velho computador. Revendo a Ester nuns vídeos (antigamente, vídeo era um filme em formato digital), a memória me leva a falar-vos, mais uma vez da escola onde o vosso pai aprendeu a ler e a ser. E da origem do projeto “Fazer a Ponte”.

A Maria Ester era uma professora experiente, amorosa, como todo o professor que o é. Mais de vinte anos, de escola em escola, até chegar à Ponte. Enquanto eu, a Maria José e a Maria Luísa dávamos os primeiros passos dos mais de quarenta anos de um projeto, a Maria Ester, a Maria das Dores e outras professoras “esperavam para ver”. Até que a amorosidade venceu a dúvida e ambas aderiram a um sonho tornado realidade. Nos últimos anos de vida profissional, a Ester trocou a solidão da sala de aula pelo trabalho em equipe. E já éramos cinco.

O projeto “Fazer a Ponte” foi obra de muitos professores, que despertaram para a necessidade de assumir um compromisso ético com a educação. E por que evoco a memória da Ester? Porque a Ester, que deu aula durante mais de vinte anos, zangou-se com um pai de um aluno, que exigia que o seu filho tivesse aula…

Quando um professor me perguntava como poderia ensinar um aluno a construir portfólios de avaliação, por exemplo, eu respondia:

Dando aula.

Perante a réplica do professor – Mas, eu poderei continuar a dar aula? – acrescentava:

Se és competente a “dar aula”, é isso que terás de continuar a fazer, valorizar o que te faz sentir seguro e disponível para mudar.

E a mudança acontecia. Porém, numa das minhas andanças pelas escolas, deparei-me com um professáurio:

Eu já cá ando há muito tempo. Dou boas aulas. E quem não aprende vai para as aulas de recuperação, ou para o especial!

Então, se bem entendi, do modo como o colega trabalha, nem todos aprendem…

Claro que não! Nem todos podem aprender!

E você vai continuar a trabalhar desse modo?

Quem é você, para me dar lições de ética? – retorquiu, visivelmente agastado.

Nem precisei de lhe explicar…

Como outras professoras, a Ester rumou do “tradicional” para um modo de trabalhar que a todos garantisse o direito à educação, porque, para além de ser competente dando aula, decidiu ser ética. E até teria motivo para continuar dando aula… Eis uma mensagem de uma mãe de aluno do “tradicional”:

Lembro-me do exato momento em que descobri como se lê, mas não me lembro das aulas, ou melhor, não me lembro das aulas das outras professoras, pois lembro com nitidez e muito carinho (e até fico emocionada quando lembro), as aulas da Dona Margarida. Hoje, pensando nela, sei que o que a diferenciava era a relação de amor e respeito com o outro, o carinho como tratava os seus alunos, a forma mágica que impunha às suas explicações da matéria. Nunca mais nos vimos, mas ela é uma lembrança preciosa que guardo no meu coração.

Por volta dos anos oitenta, a Aurora enviou-me um e-mail (não sei se vos recordais desse tipo de mensagem, mas é do tempo da vossa juventude):

A Ponte é respeitada pelas pessoas que estão verdadeiramente empenhadas na educação dos seus filhos. O que eu mais gostaria de ensinar aos meus filhos é que o infinito está onde nós quisermos.

A Aurora era mãe de duas crianças e tentava ajudar os professores da escola dos seus filhos na busca de caminhos novos. Há pais e mães que reforçam a mesmice e outros que apoiam professores que arriscam rupturas e interpelam inércias.

Com Amor,

O vosso avô José

Por: José Pacheco