Muriaé, setembro de 2039.

Queridos netos,

Decorria o mês setembro de 2019… Se Paulo Freire ainda estivesse entre nós, faria 98 anos. Mas, nesse aniversário, quem recebeu um presente fui eu. Exatamente, no dia em que a minha amiga Alessandra me enviou um saboroso texto, que celebrava a memória de do insigne Mestre, como se ele estivesse nos falando: Não existe tal coisa como um processo de educação neutra. Educação, ou funciona como um instrumento que é usado para facilitar a integração das gerações na lógica do atual sistema e trazer conformidade com ele, ou ela se torna a ‘prática da liberdade. O educador tem o dever de não ser neutro.

A minha amiga tinha consciência da quota parte de responsabilidade que aos educadores cabia pela situação política de então. Ser humano sensível e educadora atenta a tempos decadentes, Alessandra acreditava ser possível a humanização da escola. mas, entristecia com situações com que se deparava na escola: Na reunião de professores, escutei tanto a expressão “falta de interesse”. Essa tristeza embaça nossa visão, deixando de enxergar a responsabilidade que temos em meio a esse caos. Terminamos o dia cansados, desmotivados e sem esperança na possibilidade de mudar. Isso me faz pensar que desejar a felicidade já não basta, do ponto de vista intelectual, desejo a mim e a todos nós a LIBERDADE (assim mesmo escreveu, em maiúsculas!). Meus jovens alunos usam muito a expressão “zerar a vida”, conhece? Significa conquistar algo muito importante e esperado. Ora pois, irei zerar a vida!

Era imenso o seu desejo de ser feliz na profissão e de oferecer o melhor de si àqueles que com ela conviviam e aprendiam. Havia compreendido que não se trata de dar aula bem, mas sim de ser um professor bom, incomodado, decente, sensível, ético. Como todos os professores deveriam ser. No decorrer de um encontro de formação, essa inesquecível professora havia perguntado se toda a sua conduta estava errada, ao que respondi: Não! Seu trabalho não está de todo errado. Mas há muitas outras coisas certas que talvez você não esteja fazendo. Ela sabia o que seria preciso fazer… e com palavras suas concluo esta carta:

Os furiosos destes novos tempos e especialmente deste novo Brasil não sabem, mas doar beneficia tanto o doador quanto aqueles que recebem. Sempre acreditei na necessidade de se criar vínculos para conquistar o respeito, a amizade, e claro, a aprendizagem. Mas uma questão me tirou a paz. Se meu trabalho é tão bom e elogiado, se a minha relação com os alunos e a equipe é prazerosa, por que há alunos que não aprendem? Enfim, como lhe disse pelo Skype, não tenho ideia ainda sobre o que acontecerá nesta jornada, mas claramente sei o que não quero. Não quero ficar imersa neste contexto de coisas irrelevantes e medíocres. Se não posso mudar a minha escola, quero mudar a minha sala de aula. Se estiver comigo, eu consigo.

Acompanhei-a por muitos anos. Com outros educadores, num tempo em que havia quem pugnasse por “tirar Paulo Freire das escolas”, quando Freire nunca nelas tinha “entrado”. Atravessamos tempos sombrios, ajudando a levar Freire para o chão das escolas. Éramos freirianos, graças a Deus!

Na última viagem a Portugal – digo última, porque já me faltam forças para viagens transatlânticas – vos ofereci a obra do Mestre, que eu mais admiro: Pedagogia da Esperança. São escassas as páginas, mas abundantes as mensagens esperançosas, nele contidas. Lede o livrinho. Sobre ele conversaremos, se quiserdes.

Com Amor, o vosso avô José.

Por: José Pacheco