Lagos, junho de 2039

Queridos netos,

No final de década de 20, era preciso reagir perante a insanidade das práticas de algumas escolas. Por que não questionar a aula? Seria tabú?

O professor auleiro (neologismo criado pelo meu amigo Pedro Demo) não ensinava aquilo que dizia; o professor transmitia aquilo que era, contribuía para a reprodução e perenização de uma cultura pessoal e profissional feita de solidão.

Escutei um auleiro dizer que ainda “ensinava pelo método fônico” e que nas suas aulas, “quem aprendia, aprendia, quem não aprendia ia para uma classe de reforço”. O auleiro ensinava “do modo que antes se ensinava, do mesmo modo que fora ensinado”: todo mundo ao mesmo tempo, o tempo de uma aula. Sozinho, o docente estabelecia o “ritmo da aula”, em detrimento do ritmo de cada aluno. Ao cabo de alguns meses, sugeria, que os alunos que “não acompanhavam o ritmo da aula” expressão bizarra!), recebessem aulas de “recuperação”. O esforçado auleiro não sabia, mas ignorava os estilos de inteligência de cada aluno e desprezava o repertório linguístico de cada criança.

Os seres humanos poderiam aprender a ler numa diversidade de metodologias – havia métodos de base silábica, os analítico-sintéticos, os globais de palavras, contos, ou de frases, havia abordagens fonomímicas e fotossintéticas – mas o método fônico continuava sendo quase hegemônico. E, entre o fônico e a aula, muitos milhões de seres humanos sofriam de analfabetismo literal e funcional.

Continuava-se a enfeitar o obsoleto modelo de ensino com aulas de apoio, ou de reforço, com games, “qualidade total”, cursos de “planejamento de aula” e até “capacitações para dar aulas com alegria”. Insanas cosméticas eram ensaiadas: o trimestre era substituído por semestre, livros didáticos de papel eram substituídos por manuais digitais. Na sociedade do espetáculo, medidas demagógicas prolongavam a agonia da escola da aula. A mídia mostrava reportagens de sessões solenes, nas quais secretários de educação entregavam laptops às criancinhas. Por mais inverosímil que, hoje, vos pareça, vos juro que era o que acontecia naquele tempo.

Oito décadas atrás, o meu professor ordenou que, de memória, eu recitasse um poema, que se incrustou na memória de longo prazo. Terminava assim: Que os adultos, Senhor, / Sofram tormentos sem fim. / Mas as crianças, Senhor, / Por que lhes dais tanta dor? / Por que padecem assim? Sempre que evocava estes versos, me interrogava: se, dando aula, se condenava milhões de seres humanos ao analfabetismo, por que razão se continuava dando aula?

Precisávamos cultivar uma paciência idêntica à do Jó, de que nos falava a Bíblia. Mas, por que permitia o Senhor que as crianças padecessem assim?

Em 2039, ainda encontramos resquícios desse absurdo ritual: professor sozinho, no frontal anônimo de aula igual para todos, ignorando que cada aluno apela a diferentes estilos de inteligência e tem ritmo de aprendizagem diferente dos restantes. Por isso, sugeri que se embalsamasse um auleiro e o conservássemos numa sala de aula do museu da pedagogia, para que se pudesse explicar às gerações vindouras esse estranho ritual, esse nefasto hábito.

Com amor,

O vosso avô José.

Por: José Pacheco