São Miguel do Araguaia, 5 de agosto de 2040

No final de julho, uma agressiva campanha, promovida na Internet pelo sindicato das escolas do Rio de Janeiro, motivou fortes reações. Efetivamente, o vídeo da campanha era prova de que não era a falar que a gente se entendia, mas que se desentendia. Era evidente a perversão do discurso, a manipulação de emoções. A mensagem feita de belas imagens, acompanhadas de um discurso feito numa voz maviosa, não disfarçava uma malévola intenção. Ei-la: 

“Os meses se passaram. Aprendemos a conviver com o vírus. O covid nunca irá de todo, o que acaba é o medo. Hoje, sabemos lidar, tratar, nos proteger. Respeitando as rotinas, as regras e os protocolos. Estamos prontos, fizemos o dever de casa. A escola privada está pronta para reiniciar. Vimos que a ciência é a vacina. Estudos só confundiram. Trancar todos em casa não é ciência. Confinar é desconhecer, é ignorar. Trair vida é fragilizar, debilitar, mexe com o emocional. As crianças precisam voltar a se relacionar, brincar, refazer laços, amizades, rever seus amigos. Hora de reflorir, recriar, no novo tempo. O sol precisa torar a brilhar!”

Em plena pandemia, as escolas particulares recebiam autorização de funcionamento. E esse vídeo deu origem a reativos comentários:

É horrível, cruel! Distorce os fatos. Só olha o lado do capital. Naturaliza o que é histórico-cultural. Triste! Muito chocante essa propaganda! 

Amigos meus de longa data e nobre erudição se juntaram ao coro e perguntavam: 

Como é possível uma coisa destas? 

Não se apercebiam de que tinham ajudado a manter um monstruoso sistema de ensino. Melhor dizendo: éramos os principais responsáveis pelas perversas práticas – Incluí-me no rol dos culpados, porque a minha cultura profissional me dizia que eu era individualmente responsável pelos atos do meu coletivo, o coletivo das ciências da educação.  

No início de agosto, o Brasil contabilizava uma média diária de mais de mil mortes por covid-19. O percentual de jovens com Covid-19 no mundo triplicara em cinco meses. E as autoridades preparavam… o “regresso às aulas”.

No Brasil do fundamentalismo religioso, um pastor vendia sementes de feijão, com a promessa de que o plantio dessas milagrosas leguminosas mataria o vírus. 

“Estudos só confundiram. Trancar todos em casa não é ciência” – Assim argumentavam os ignorantes. O que seria para eles a ciência? O que saberiam eles das ciências da educação? Nada! Mas, os meus companheiros das ciências da educação – sociólogos, psicólogos, filósofos… – sabiam tudo, ou quase tudo. 

No aconchego dos gabinetes da universidade, a sua reflexão voava tão alto, que se perdia nos labirintos da teorização das teorias. O olímpico mundo da especulação alheou-os do mundo real e, só intervinham em momentos críticos, para lamentar. 

Inúteis teoricistas publicavam tratados, elaboravam teses de doutorados, faziam pós-doutorados. Por omissão, ou inação, os PhD da educação eram responsáveis pelo descalabro do sistema e disso não se apercebiam. Ou fingiam não perceber que a universidade havia perdido o monopólio do saber e apenas mantinha o controle da diplomação.

Na Internet, surgiam simulacros de inovação, sob a forma de cursos e “aulas gratuitas”, nas quais os critérios de natureza científica eram desprezados. Quando assistia a esse triste espetáculo, esperava a denúncia da mercantilização da ensinagem por parte daqueles que, como eu, eram especialistas, se tinham formado em ciências da educação. Tornava-se difícil aceitar a apatia, suportar o seu obsceno silêncio. Por onde andaria a sua coragem cívica?

 

Por: José Pacheco