Cáceres, 6 de agosto de 2040

Durante a quarentena, o amigo Tuck presenteava-nos com registros de observação de pássaros, que por Atibaia havia. Chegou a vez do Urubu, chamado o “rei dos mortos”. O amigo Tuck era um multifacetado artista, emérito observador e escritor. E, deste modo, descrevia o “rei dos mortos”:

“Ver um Urubu é um sinal de que há morte por perto e isso pode incomodar algumas pessoas, pois a morte obviamente sempre incomoda. Por mais que tenhamos nos desprendido da vida, pior tem sido esse nosso modo de vida, que se desconectou da morte. A meu ver, nada mais perigoso do que isso. Da morte é que surgem coisas como: a arte, a noção de finitude, a urgência, a solidariedade, incluindo a noção de estar vivo (…) Sempre me impressiona o quanto nos “desprendemos” de todo o resto da vida, que não cabe no nosso senso de consumo doméstico. Mas há caminho de volta nesse rolê e é um caminho bem necessário. Seguimos na quarentena, que se estende sem previsão de fim, nas terras de um país mal inventado”.

Em 1918, a morte cobrira com o seu manto esse país “mal inventado” e os urubus tiveram farto banquete. Cadáveres jaziam na porta das casas, atraindo-os. Carroças recolhiam os corpos e seguiam para o cemitério, sempre acompanhadas pelos pássaros de negra plumagem.

As famílias tinham medo de serem infectadas pelos mortos e jogavam-nos para fora de casa. Muitos coveiros morreram e, nas ruas juncadas de cadáveres, os urubus agiam como agentes sanitários. A polícia saia às ruas, capturando os homens mais robustos, forçados a abrir covas e a sepultar cadáveres. Não havia caixões suficientes para albergar os corpos e estes eram despejados em valas comuns. A demora em tapar os corpos transformava esse improvisado necrotério em pasto para bandos de urubus. 

Tal como em 2020, também houve vítimas entre a juventude. Professores não podiam dar aula por estarem doentes ou em convalescença, ou ainda porque não havia alunos – as escolas mandaram-nos para casa. Foi decretado que aluno nenhum repetiria o ano letivo, bem como a aprovação automática de todos, sem necessidade de exames finais. 

Queridos netos, falo-vos do cenário dantesco criado pela gripe espanhola. O vírus chegara ao Brasil a bordo de um transatlântico procedente da Europa. Os hospitais ficaram abarrotados.  Todo comércio fechou, exceto as farmácias, que fizeram bom lucro, elevando o preço dos medicamentos. Os jornais anunciavam remédios milagrosos. E o povo recorria a um remédio caseiro: cachaça com limão e mel. O preço do limão disparou… até dezembro, quando a pandemia se dissipou. O Instituto Brasileiro da Cachaça diz-nos que foi dessa receita supostamente terapêutica que nasceu a caipirinha. E, em 2020, uma nova marca foi lançada: “Cachaça Cloroquina”. 

A cachaça sempre esteve ligada ao mundo da educação. Lembremo-nos de que os primeiros mestres-escolas eram pagos com o produto da recolha do imposto sobre a produção desse precioso líquido. A saúde e a educação sempre andaram juntas. Se a cachaça funcionava como medicamento para o corpo, também agia como terapia, um meio de afogar mágoas. E, de modo indireto, esteve na origem do “Ministério dos Negócios da Saúde e da Educação Pública”. 

À semelhança do vírus da gripe espanhola, o coronavírus desocultou a fragilidade do sistema de saúde, do sistema econômico e do educacional. Durante a pandemia de há cem anos, os arautos da Escola Nova propunham a erradicação do modelo instrucionista. Decorrido um século, em 2020, o “urubus do sistema” nada haviam aprendido com o vírus e preparavam o “regresso às aulas” instrucionistas.

 

Por: José Pacheco