Santa Rosa, 21 de novembro de 2040

Hoje, trago-vos notícia de uma funesta sequência de acontecimentos, que começou com momentos de espanto.

Quando vasculhava as estantes de um sebo, deparei com um título comum de um livro, que nada tinha de vulgar: “A Escola Secundária Moderna”. O mestre Lauro tinha escrito um tratado, onde vertera um pouco da sua sabedoria. Procurei outros títulos do autor e apenas encontrei “A Escola para a Comunidade”.

Europeu etnocêntrico, eu cria que tivessem sido os anglo-saxônicos e os catalães os primeiros a escrever sobre comunidades de aprendizagem. Puro engano! No sul da América, trinta anos antes da construção teórica do Ramon, Lauro apontava caminhos para a transformação da escola num nodo de comunidade de aprendizagem: “A expressão escola de comunidade procura significar o desenquistamento isolacionista da escola tradicional. Escola, no futuro, será um centro comunitário. Não se reduzirá a um lugar fixo murado”.

Eu estava num encontro de formação, no dia do feliz encontro com a obra do Mestre. Perguntei a mais de uma centena de professores, ali presente, se alguém sabia do paradeiro do Lauro. Ninguém sabia. Nem sequer tinham ouvido falar de tal nome.

O Mestre havia nascido no Ceará, mas morava no Rio, onde decorria o encontro. No final da tarde, a senhora que varria o salão aproximou-se e perguntou:

“O senhor quer saber onde mora o senhor Lauro?”

Seria mesmo o Lauro, o autor dos livros? Aquela senhora o conhecia e indicou-me o endereço de uma casa, no Recreio dos Bandeirantes. No dia seguinte, me apresentei como visita e mantive com o Mestre uma saborosa manhã de conversa.

Dali fomos para a “Chave do Tamanho”, onde conheci a Beta, sua filha, e reconheci Piaget, nos mínimos detalhes da vida daquela escola. O bate-papo a três se estendeu por toda a tarde. E o amigo Lauro reiterava a crítica da escola da aula:

Encontramos escolas como verdadeiros quistos sociais, sem nenhuma relação real com o meio; estas escolas fechadas são elementos perniciosos para o meio. Museus, bibliotecas etc., estando à disposição de todos, deve a escola ensinar o povo a utilizar-se desses instrumentos de cultura (…)  aí se inicia uma escola; todos os serviços escolares, toda a estrutura administrativa, toda a legislação escolar, toda a burocracia resultam à posteriori deste fenômeno primário; cada membro da comunidade, para além da responsabilidade pessoal e social, tem compromisso com as novas gerações.

Em 2012, a Escola do Projeto Âncora quis homenagear um dos maiores educadores vivos. O Lauro estava muito doente, sem condições de se deslocar do Rio até Cotia. A Beta, sua filha o representou, numa festa organizada pelas crianças. No final, os alunos do Âncora entregaram à Beta umas “cartinhas para o amigo Lauro”.

Recordo uma manhã de trabalho no Âncora, em janeiro de 2013, quando a Internet nos trouxe a notícia do falecimento do Mestre. Voltei ao Rio e à escola do Lauro, para saber como poderia ajudar a Beta a continuar a obra do seu pai. Era grande a consternação. E era imensa a minha indignação, por saber de uma morte anônima. Nem uma notícia de jornal, nem uma homenagem póstuma a um dos maiores educadores do século XX!

Em junho de 2020, quando ajudava os pais dos seus alunos a entender como se pode aprender em tempo de pandemia, a Professora Beta morreu. A equipe da “Chave do Tamanho” assim publicava a fatídica notícia:

“Sua força, coragem e sabedoria irão indicar os caminhos. Continuaremos a trabalhar por essa bandeira da educação no Brasil”.

Em maio de 2020, recebi a notícia de que a “Chave do Tamanho” iria ser vendida.

Por: José Pacheco