Belém, 13 de outubro de 2040

No 13 de outubro de há vinte anos, como era tradição, o Santuário de Fátima recebeu muitos peregrinos. Em conformidade com o previsto no plano de contingência, quando foi atingido o número de romeiros considerado como aglomeração sem potencial de contágio, o acesso ao recinto de orações foi bloqueado. 

Entretanto, no Brasil, vídeos publicados na Internet mostravam pessoas se empurrando, uma multidão competindo num corpo-a-corpo consumista, para entrar numa loja, recebida por funcionários sem máscaras protetoras. Alertadas as autoridades, a polícia bloqueou o acesso à loja. 

O estabelecimento foi notificado por não cumprir regras previstas de distanciamento social pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Mas o mal já estava feito. Mais algumas vidas se perderiam, inutilmente, estupidamente. Indignado, um professor assim se manifestava:

“É uma orgia de irresponsabilidade! Uma loucura! Um crime!”

Respondi ao seu e-mail com uma pergunta apenas:

“Caro colega, compreendo a sua indignação. Mas qual é a tua parte de responsabilidade nesse e em outros crimes?”

O professor pareceu não ter entendido. Marcamos um zoom e dirigi-lhe outras perguntas:

“A educação que dás aos teus filhos, a aula que tu dás na escola, a educação que a sociedade apoia e o governo impõe, contribuem para formar seres humanos responsáveis, autônomos, solidários?”

Disse-lhe que, na Ponte de meados dos anos setenta, após termos definido uma matriz axiológica, buscamos modos de desenvolver três valores assumidos: a responsabilidade, a autonomia, a solidariedade. Seria indispensável interrogar as nossas práticas, saber por que fazíamos o que fazíamos e do modo como o fazíamos. 

Dessas interpelações resultaram projetos de mudança escolar e social. Cuidamos da pessoa do professor, para que se pudesse ver na dignidade de pessoa humana e visse os outros educadores como pessoas. Os professores assumiram responsabilidade individual pelos atos do seu coletivo, reelaborando a sua cultura pessoal e profissional.

Os projetos educacionais careciam de um novo sistema ético, de uma matriz axiológica baseada no saber cuidar, no conviver com a diversidade. Bastou que os professores assumissem um compromisso ético com a educação, questionando velhas teorias e obsoletas práticas. Concebemos uma verdadeira escola pública, que a todos acolhia e a cada qual dava oportunidades de ser, de aprender e de aprender a conviver. 

Em 2020, quase meio século decorrido, a autonomia, a responsabilidade e a solidariedade eram quotidianamente exercitadas na Ponte. Mas, em outros lugares, o modelo instrucionista continuava a provocar baixos índices de desenvolvimento, ignorância, corrupção intelectual e moral. Esse modelo educacional era responsável pela irresponsabilidade de multidões e dos donos de estabelecimentos comerciais, que provocavam criminosas aglomerações, em tempo de pandemia. 

Nos projetos político-pedagógicos das escolas desse tempo, estava escrito que se faria dos alunos pessoas autônomas, responsáveis. Mas, a prática era a negação do projeto escrito. Na sala de aula, se fomentava heteronomia, dependência, submissão, obediência formal, irresponsabilidade, individualismo, competitividade negativa, corrupção intelectual e moral.

Em 2020, ainda havia salas de aula. Nem as propostas escolanovistas tinham sido experienciadas, como pretendia Claparède, já no início do século XX:

“É absurdo uma mesma aula para todos os alunos, como um mesmo número de sapatos para todos os pés”. 

 

Por: José Pacheco