Caraíva, 6 de março de 2041

Nasci e vivi os primeiros anos de minha vida num dos bairros mais pobres da cidade do Porto. Quando vivemos imersos na miséria física e moral não nos apercebemos dela. Valeu-me ter nascido numa das famílias que reinventavam com dignidade a sua existência. A escola que eu tive foi a de maior pobreza que se possa imaginar. Tinha um quadro negro e umas carteiras a desfazer-se. As crianças iam à escola para poder comer o queijo amarelo da Caritas, alimento mitigador de processos de desnutrição. E os professores esforçavam-se, muito se esforçavam para ensinar os filhos dos deserdados da vida, para incluir os excluídos.

Nesse tempo, era muito raro alguém concluir a “quarta classe” e ainda mais raro ir além. Não saí da quarta classe para ser professor, mas para ingressar num curso técnico: o de eletricista. Na década de cinquenta, ter um filho “fazendo estudos” era motivo de orgulho para minha família e o pai António mostrava a todo mundo as notas e os diplomas do seu filho.

Trabalhei para poder estudar. Não era emprego da minha predileção, mas trabalho duro de oficina. Creio ter achado a “vocação”, quando ajudei o Artur na preparação para o exame de acesso à Universidade. Ele havia conhecido uma mocinha por quem se apaixonara. O pai da moça era muito rico, não queria que a filha se relacionasse com um “serralheiro maltrapilho da Rua da Vitória”. O Artur encheu-se de brios, que a motivação era forte. Com a minha ajuda, se fez engenheiro, tal como eu iria ser.

Ganhei fama de bom “explicador” e não tardou que a minha casa se enchesse de jovens necessitados de “explicações”, de “aulas de reforço”. E o encontro com um professor mudou toda a minha vida. Fui ouvir uma palestra sua, que deu uma volta à minha vida.

Chamava-se Lobo. No meu país, ainda hoje, a sua memória nunca é evocada, ninguém fala desse professor, nem de outros tão extraordinários como anônimos educadores. Trabalhava nos moldes do ensino dito “tradicional”. Dava aula e batia nos alunos que respondessem errado. Até que, certo dia, após ser castigada, uma criança susteve o choro e perguntou:

“Professor, por que é que tu nos bates? Por que é que tu não nos ensinas?”

“Tenho cinquenta anos” – contava o professor Lobo – “Durante vinte anos, dei aula e dava aula muito bem. A partir desse dia, mudei tudo, tudo! Os meus alunos assumiram-se como pessoas, passaram a aprender com facilidade” (sic).

Escrevi num papel os nomes que o Professor Lobo citou no decurso da palestra. Ouvi falar de Montessori, Freinet, Steiner, Dewey… para mim ilustres desconhecidos. Dei início a uma pesquisa, que dura há já setenta anos, converti-me ao paradigma da aprendizagem. Entre a filiação no Movimento da Escola Moderna e o apoio à criação de escolas Waldorf, da criação de “cantinhos” na sala de aula à colaboração em escolas montessorianas, do aprofundamento do estudo de Dewey até à aplicação das práticas de Kilpatrick… se chegou à Escola da Ponte.

Vinte anos decorridos sobre a palestra, fui convidado para trabalhar numa faculdade. Quando fiz acordos sobre o processo de avaliação, um dos meus alunos perguntou se eu aceitava como “evidência de aprendizagem” a biografia de um professor. “Certamente” – respondi – “De que professor se trata?”

“É um professor que fez setenta anos e está no seu último ano de docência”.

“Qual é o seu nome?“

“Lobo” – respondeu o jovem – “Acaso o conhece?”

Acenei um “sim” com a cabeça, poque a voz se reteve na garganta.

E, quando dispus de tempo para visitar o professor inspirador de tudo o que eu fiz ao longo da minha vida e lhe manifestar gratidão, ele já havia falecido.

Por: José Pacheco