Bom Futuro, 5 de fevereiro de 2041

Muito tempo atrás, teóricos da mecânica quântica defendiam a possibilidade de existirem universos paralelos. Num livro chamado “Algo profundamente oculto” um físico expôs a teoria de múltiplos mundos. E certo é que, nos domínios da educação, os havia. O submundo do ensino “superior” coabitava com o submundo do ensino supostamente “inferior”. O mundo do chão de escola se submetia ao submundo de uma administração educacional autoritária. E, de tão paralelos, raramente esses mundos se encontravam. 

Sabemos que educar pressupõe relação, “estar com”. Porém, no sistema de ensino, subsistia um paradoxo: quanto mais distante o educador estivesse da relação, da prática em chão de escola, mais solitário estava, maior salário auferia e mais elevado estatuto social parecia deter. 

No tempo do “ensino superior”, documentos oficiais utilizavam um eufemismo que não constava do dicionário: ensino “não-superior”. Esse ridículo eufemismo agia como repelente de novas práticas. A escolas de “ensino inferior” replicavam a escola “superior”. Em Portugal até havia “escolas superiores de educação”. Labutei numa delas e nada de “superior” nela encontrei.

Eu queria crer que, se funções “superiores” houvesse, a mais elevada deveria ser a de ajudar a aprender, num sistema de aprendizagem. Porém, no sistema de ensinagem, as deserções para funções ditas “superiores” eram tantas, que parecia que os melhores professores eram aqueles que conseguiam libertar-se das agruras do mundo paralelo do chão de escola “inferior”. 

Quando eu já era mestre em educação, recebia salário de bacharel, só por ter optado por continuar professor do ensino fundamental. Considerava injusto e imoral que houvesse salários diferentes para idênticos horários de trabalho e para o exercício da profissão em idênticas condições. 

Eu questionava o abismo salarial existente entre professores com diferentes tempos de serviço e estatuto social. Por que razão um professor da “ensinagem superior” auferia salário maior do que um professor da “aprendizagem inferior”? Por que razão um doutor deveria auferir maior salário do que um licenciado? Que razões ocultas legitimavam que um professor aposentado ganhasse o dobro do salário de um professor em início de carreira? Por que se mantinha a antiguidade como critério de graduação?

Para a última pergunta, era conhecida a resposta. Seguindo a lógica do funcionalismo público, quanto mais tempo se fosse fiel ao seu “superior”, maior salário se recebia, quanto mais servil, maior a recompensa. A lealdade ao sistema era recompensada, sacrificando-se a autonomia, a dignidade. 

Estalou uma polémica em torno dos critérios utilizados num concurso. Professores excluídos diziam que outros haviam “passado à frente”, garantindo que foram colocados colegas “com menos anos de experiência”. A professora Sofia queixava-se de haver colegas que, “por não terem sido denunciados, foram colocados, ter regalias”, enquanto o ministério alegava que “havia quem manifestasse a opinião de que a colega Sofia só pretendia passar à frente de tudo e de todos”. 

Nos idos de vinte, os professores “inferiores” assistiam impávidos à depreciação das suas práticas, tudo suportavam com infinita paciência. Mas, com bom senso, um deles comentou a polémica: 

“É aviltante a falta de ética! Será preciso lembrar que somos exemplo para as crianças?”

Resta dizer-vos que a erradicação do sistema de ensino e a fundação de sistemas de aprendizagem, consumadas nos anos trinta, possibilitou a junção de mundos paralelos. 

 

Por: José Pacheco