Guaiú, 4 de março de 2041

Na vossa carta, me dissestes que o “Avô Mário” faria 111 anos e não 112. Vos agradeço a correção, mas sabei que os nossos amados ausentes não têm idade. Também dissestes que ele não era trisavô, mas bisavô. Sugiro, pois, que regresseis à leitura do livrinho a que dei o nome de “Para os filhos dos filhos dos nossos filhos”. Ireis perceber que, nesse livrinho, me dirijo ao trisavô espiritual dos vossos filhos, ao “Avô Mário”.

Por altura de 2021, a Humanidade aprendera algo com a lição dada por um vírus. Mas, apesar de a pandemia ter escancarado os trágicos efeitos do instrucionismo, ainda decorreria uma década até ao anúncio de um “novíssimo normal,” a “Idade da Educação”, aquela de que os vossos filhos – os filhos dos filhos dos filhos dos pais do início do século – eram merecedores.

Por razões que aqui não contarei, durante a pandemia, vi-me forçado a uma diáspora, que me expôs a múltiplos perigos, mas que também me propiciou reencontros. Adversidades, que não quero lembrar, me fizeram passar por lugares de fraterno acolhimento. Em escassos dias, me vi sendo cuidado em fraternos lares, pude saborear a suave brisa marítima do mundo dos tupinambás, penetrei o remanso de uma resiliente Mata Atlântica. Por breves, mas ditosos dias, convivi com a Maria, o Ramon, a Nádia, a Caína, o Marquinhos, a Flora, o Tiê, a Ilana, o Filipe, o Uanan…

“Uaná” é nome de origem Tupi, significa “pirilampo”. Uanan era um belo menino, um vagalume, um dos pontos de luz do Jardim Ciranda que, como o Tiê e a Flora, vivenciariam a nova educação. Nesse tempo e lugar, admiráveis seres humanos preparavam o rútilo futuro de outros seres. E, ao observar as conversas entre o Uanam e a sua mãe, confirmei que uma criança pertence ao que está acontecendo à sua volta. Ela é o que está acontecendo. Se a acompanhamos na identificação com o aqui e agora, reencontramo-nos com o movimento livre da criança que fomos, reaprendemos a tudo ver como se fora a primeira vez. 

Nos dias de peregrinagem, sentia-me voltando ao tempo em que o vosso pai nasceu. Voltei a sentir a preocupação então sentida, quando cogitava a escola que eu desejava que fosse a do André… até que chegou o tempo da Ponte. 

O tempo do seu adolescer me surpreendeu nas andanças a que a Ponte me forçou. Deveria ter aproveitado todo o tempo breve de o vosso pai se fazer jovem adulto e me confesso arrependido de longas ausências. Por isso, recomendava aos pais que aproveitassem bem o tempo dos seus filhos. Quando “já somos grandes”, na idade de comunicar na linguagem dos homens, já é demasiado tarde para reaver uterinas memórias. Elas ficam guardadas no mais secreto recanto, até que, passada a idade de ser velho, se esvai o tempo e se regressa ao lugar da memória de todos.

Acontece um tempo nas nossas vidas em que ficamos órfãos dos filhos, porque os amamos e os queremos com vida própria – como diria Kalil, “uma árvore não cresce à sombra de outra árvore”. Mas, o nascimento de um neto é como o regresso de um filho pródigo. Voltamos ao tempo de contar estórias. Não somente as que falam de duendes e fadas, mas daquelas que assomam à memória dos avós. 

Quando a vida me levou para o sul, só a espaços contava aos meus netos estórias do tempo em que eu também fui menino. Para eles eram tão reais e verosímeis como as que falavam de unicórnios azuis, ou de princesas encantadas. 

No meu peregrinar, sabia que toda a viagem tem regresso. Que o barco que parte não é o mesmo que regressa, mas regressa. Que a vida é toda ela feita de reencontros. Que somos um pouco de cada ser encontrado na viagem. E que, ao nosso lado, há seres viajando… outras viagens.

 

Por: José Pacheco