Pedra Selada, 23 de março de 2041 

Sempre oportuna e incisiva, a minha amiga Tina zurzia a propósito as “bolhas enfadonhas” e outras aberrações em que a educação dos idos de vinte era pródiga:

“Não confundir PRESENÇA com “P” na chamada. Como as escolas e universidades se tornaram bolhas enfadonhas, criaram a chamada, que obriga o aluno a estar de corpo presente e a mente pode estar na lua. No dia que as escolas e universidades forem genuinamente espaços de aprendizagem, os alunos terão sede de novos conhecimentos. Para que haja aprendizagem, é necessário engajamento, empenho, dedicação, esforço, desejo, emoção, empolgação, curiosidade e encantamento. 

A chamada é o mais poderoso instrumento infantilizador e controlador do sistema educacional. Em nada contribui para o processo de aprendizagem e chega a ser mais inútil que a nota.”

Quando li as palavras da minha amiga, recordei o dia em que me entregaram a “listagem das turmas”, me exigiram um “cronograma de aulas para o semestre” e uma proposta de datas de realização de exames. Juntaram ao pacote umas “listas de presenças”. 

Devolvi a “listagem”, informando que não acataria a imposição de segmentações, fossem elas “turma”, “ano letivo”, o que quer que fosse de tralha instrucionista. Com todo o respeito pelos hábitos da casa, recusei entregar o “cronograma das aulas”, informando que não daria aula. E joguei no lixo as “listas de presença”, porque na “proposta pedagógica” dessa instituição estava escrito que se pretendia “formar cidadãos autônomos e responsáveis”. 

Comuniquei, também, que praticaria avaliação formativa, contínua e sistemática, traduzida em portfólio. Não haveria exames. Em pleno século XXI, os testes padronizados eram criadouros de corrupção intelectual e moral. O hábito da “cola” era um dos subprodutos de um malfadado modelo educacional recriado no século XIX. Alguns termos importados da gíria – no Brasil, a “cola”; em Portugal, “copianço” – chegaram a ser encarados pelos autores dos dicionários com algum pejo. Mas, por maior ostracismo a que fossem votados pela ortodoxia, não deixaram de ser práticas sociais suscitadas e alimentadas pela escola da prova, que ainda tínhamos no início da década de vinte. Delas resultaram fenómenos colaterais, cujos efeitos poderão ser avaliados pela leitura do diálogo que se segue. 

No rescaldo de uma palestra, em que eu (fraternalmente!) zurzi nas práticas de avaliação mais vulgarmente utilizadas pelas escolas, uma jornalista fez-me a pergunta seguinte: 

“O que faria para resolver o problema da “cola”? 

Questionei: 

“A “cola” é mesmo um “problema”, ou consequência de um problema bem maior?” 

A jornalista não entendeu a pergunta, ou não quis entender, porque insistiu: 

“Que sugestão daria para resolver este problema?”

Eu satisfiz a sua curiosidade, recorrendo a alguns considerandos: 

“Se uns alunos copiam e outros não, se o acesso à informação deve ser democratizado, bastará que se acrescente ao currículo nacional mais uma disciplina. Poderá chamar-se “Técnicas de colar”. Depois, far-se-á um concurso interno na escola, de modo a selecionar o professor para a leccionar. Será aquele que, no seu tempo de estudante, tenha dominado bem a utilização da “cola”. 

Com a carga horária de uma hora semanal, esta disciplina habilitaria todos os alunos ao uso da variedade de recursos disponíveis nesse campo do saber. Deste modo, estaria assegurado o cumprimento do princípio que nos diz ser a escola uma estância de igualdade de oportunidades.” 

No tempo do negacionismo, a ironia nos salvava, quase nos livrava do desespero.

 

Por: José Pacheco