Serra da Mantiqueira, 24 de março de 2041

Nunca será demais lembrar que, apesar da teoria e contra ela, a realidade nos diz que, no campo da educação, nos idos de vinte e desde há séculos, tudo estava escrito e tudo continuava por concretizar. Continuávamos a negar a diversidade. Isso mesmo: a “crise da escola” era a dificuldade de lidar com a diversidade. 

Acreditava ser possível obter mudanças efetivas no comportamento humano, questionando a estrutura das formas de educação que praticávamos. O desenvolvimento de atitudes de respeito, de solidariedade e preservação da vida pressupunha escapar de formatações, superar visões fragmentadas, aprender a reconhecer os impactos coletivos gerados por ações individuais e vice-versa – aprender a identificar padrões de dominação e exploração presentes em nossa cultura… e diversificar. 

Desejava que essa asserção estivesse presente na elaboração de políticas públicas e que influenciasse positivamente os tecnocratas que controlavam o sistema, bem como as instituições de formação de professores. Esperava que os ministérios e secretarias de deseducação passassem a ser de educação, e que os sistemas de ensinagem se transformassem em redes de aprendizagem.

Reflitamos… Se é sabido que aprendemos com quem sabe algo diferente daquilo que nós sabemos e que escassa novidade vem do mesmo grupo etário, por que razão as séries e as turmas eram predominantemente constituídas por jovens da mesma idade?

A essa absurda segmentação se juntava aquilo que dava pelo nome de “data de corte”, ou “idade de corte”. Dizia a lei que os guris poderiam entrar no ofício de aluno, apenas se completassem seis anos até ao dia 31 de março. Se a mamã se esforçou, puxou, tentou, mas não conseguiu parir o seu filho, até à meia noite desse mês, a criança deveria esperar um ano inteiro para ter o seu primeiro dia de escola?

Eram inúmeros os exemplos de absurdos legislativos. Por ora, apenas acrescentarei um, por estar intimamente ligado ao anterior. Presumia-se, ou as conclusões de duvidosos estudos determinavam, que existisse uma idade ideal para a alfabetização. Mas, como explicar que houvesse crianças que desejavam aprender e aprendiam a ler aos cinco anos, e jovens com dez anos sem desejo nem condições de serem alfabetizados? 

Crime era fazer esperar os primeiros e submeter os segundos à humilhação de precoces tentativas de alfabetização, todos ensinados pela mesma cartilha e metodologia, como se fossem um só. Cadê o respeito pelo ritmo de cada qual? Esse duplo absurdo explicava, em parte, a existência de milhões de analfabetos funcionais, que as estatísticas brasileiras vergonhosamente ostentavam. 

Urgia interpelar o quadro legal naquilo que ele tinha de rançoso. Urgia desburocratizar as práticas, num projeto feito num refazer-se contínuo, em permanente fase instituinte, avaliado em múltiplas releituras. Urgia reformular terminologias: desenvolver trabalho COM e não ensinagem PARA; substituir o OU pelo E, harmonizar o EU com o NÓS. Urgia redefinir o perfil do mediador de aprendizagem, considerar o aluno como participante ativo de transformações sociais, reconfigurar práticas, desguetizar as escolas. 

Seria possível passar do absurdo à concretização da utopia, identificando causas profundas de fenômenos como a exclusão escolar e social, que não eram inevitáveis. Bastaria que os professores se interrogassem. Da capacidade de interpelar as práticas poderiam emergir dispositivos de mudança, em todos os espaços sociais onde ocorria aprendizagem. 

Em 2021, só faltava… fazer.

 

Por: José Pacheco