São Sebastião do Paraíso, 25 de março de 2041

Nos idos de vinte, o homem mais lúcido que havia conhecido decifrava os pequenos grandes segredos que a natureza humana encerrava. Nos seus noventa e nove anos, comungava da simplicidade dos sábios, para nos dizer que estava vivendo uma crise nova, uma nova pandemia (ele nascera quando findava a gripe espanhola):

“Surpreendi-me com a pandemia, mas em minha vida estou habituado a ver chegar o inesperado. Estou vivendo uma crise nova, enorme, mas que tem todas as caraterísticas da crise. Isto é, de um lado suscita a imaginação criativa e, de outro, suscita medos e regressões mentais. 

Buscamos todos a salvação providencial, só que não sabemos como. É preciso aprender que na história o inesperado acontece, e acontecerá de novo. Pensamos viver certezas, com estatísticas, previsões, e com a ideia de que tudo era estável, quando já tudo começava a entrar em crise.

Vemos hoje instalarem-se os elementos de um totalitarismo. Este, não tem mais nada a ver com o do século passado. Mas temos todos os meios de vigilância a partir de drones, de celulares, de reconhecimento facial. Existem todos os meios para surgir um totalitarismo de vigilância. O problema é impedir que esses elementos se reúnam para criar uma sociedade totalitária e invivível para nós.

Às vésperas dos cem anos, o que posso desejar? Eu desejo força, coragem e lucidez. Precisamos viver em pequenos oásis de vida e de fraternidade”.

Como diria o amigo Valdo, Morin era um referencial de várias naturezas e olhares. A escassos meses de completar um século de vida, dizia: 

“É hora de mudarmos de via, de atentarmos nas lições do corona vírus”.

Ao que parece, os professores não liam o que Morin escrevia. 

A leitura não é tudo na vida, ler não é suficiente para operar mudanças, mas não pode haver mudança nas práticas que possam dispensar a teoria. Por mais livros que se leia, nunca serão suficientes na ajuda prestada na resolução das nossas dificuldades de ensinagem. Compreendi isso no contexto de uma prática que concretizou utopias. E, já aposentado, partilho leituras com professores que não desistem de se melhorar. Tenho consciência de que, por mais livros que leia, serei sempre ignorante, dada a quantidade de conhecimento disponível. 

Surpreendia-me, quando alguém me dizia haver professores que não liam. Talvez por isso, muitos professores agissem como aprendizes de feiticeiro, não logrando explicar por que faziam aquilo que faziam, fosse lá o que fosse que fizessem. Não conseguiam fundamentar as suas práticas com recurso à teoria. E, porque não se distinguia a sua “opinião” da “opinião” de qualquer leigo em pedagogia, eram “desvalorizados por uma opinião pública na qual todos se consideravam especialistas em Educação”, como nos diziam a Hanna e o Piaget.

Os não-leitores eram mais vulneráveis a discursos pretensamente inovadores. Sei de gente que fez fortuna vendendo receitas de autoajuda pedagógica, sedutoras soluções, que os próprios vendedores não aplicavam. Observava-os afagando o ego dos professores, contornando questões delicadas, recorrendo ao discurso da desculpabilização, tratando os professores quase como mentecaptos. 

Perplexo, eu assistia a intervenções públicas de adeptos do pensamento único, que misturavam afirmações do senso comum com propostas fósseis, contribuindo para que as escolas não se apercebessem da obsolescência do modelo instrucionista. 

Mas, a década de vinte seria marcada por uma profunda e radical transformação cultural decorrente da criação de hábitos de leitura: de si e do mundo.

 

Por: José Pacheco