Passos, 26 de março de 2041

Decorria o mês de março de 2010. Perplexos, jornalistas e especialistas interrogavam-se sobre as causas de infaustos acontecimentos. Um jovem e um professor se suicidaram. Talvez tivessem desistido da vida porque convivência não rima com ausência e relação não rima com solidão. Talvez porque as escolas daquele tempo fossem prédios e arquipélagos de solidões. 

A modernidade remetera-nos para uma ética individualista. Carecíamos de projetos humanos com referência a um novo sistema ético, uma matriz axiológica clara baseada no saber cuidar e conviver. Dizia-nos Maturana que a educação acontece na convivência, de maneira recíproca entre os que convivem. E Winnicott definia o ser humano como pessoa em relação, ser singular, que não pode existir sem a presença do outro

O indivíduo-com-os-outros adquiria consciência do seu papel numa ordem simbólica complexa e concreta, que o protegia dos efeitos mortais da uniformização. Se, nesse longínquo ano, era verdade que o conceito de partilha estava eivado de conotações moralistas, também era certo que era de partilha que se tratava, da manifestação de um sentimento de partilha que rejeitava atitudes de quem se julgasse no direito de dar respostas a perguntas que nunca escutou. Contrariando racionalidades mecanicistas, numa relação de escuta, a circulação de afetos produzia novos modos de estruturação social. Não negando o potencial da razão e da reflexão, juntava-lhe as emoções, os sentimentos, as intuições e as experiências de vida. 

A escuta, para além do seu significado metodológico, seria humanamente significativa. No contexto escolar, teria de abdicar de atitudes magistrais e paternalistas, para que todos aprendessem mediados pelo mundo. Aos adeptos do pensamento único dizia ser necessário saber fazer silêncio “escutatório”, fundamento do reconhecimento do outro. Dizia que precisávamos rever a nossa necessidade de desejar o outro conforme nossa imagem, respeitando-o numa perspectiva não-narcísica, ou seja, aquela que respeitava o outro, o não-eu, o diferente de mim, aquele que não queria catequizar, que defendia a liberdade de ideias e crenças, como nos avisaria Freud. 

Aos cínicos dizia que, onde houvesse turmas de alunos enfileirados em salas-celas, dificilmente encontraríamos resquícios de convivência. Que onde houvesse séries, anos, segmentações assentes na crença de ser possível ensinar a todos como se de um só se tratasse, enquanto o professor estivesse sozinho na sala de aula, seria inviável pensar em dialogia e convivencialidade.

As escolas careciam de espaços de convivência reflexiva. Precisávamos compreender que pessoas eram aquelas com quem partilhávamos os dias, quais eram as suas necessidades (educativas e outras), cuidar da pessoa do professor, para que se visse na dignidade de pessoa humana e visse os outros como pessoas. Precisávamos exercer a consideração positiva incondicional, de que falava Carl Rogers. De praticar a confirmação, no dizer de Martin Buber, o amor incondicional postulado pela Alice Miller.

Restava acreditar que os educadores pudessem inspirar-se nesses e em outros autores, para reconfiguração das suas práticas, para a passagem de uma profissão solitária para uma profissão solidária. Restava acreditar que o suicídio não era algo inevitável. 

Havia quem se surpreendesse, quando eu recomendava que procurassem nas escolas professores que ainda não tivessem morrido. Havia quem recusasse ver que muitos professores morriam aos vinte e eram enterrados aos sessenta. 

 

Por: José Pacheco