Araxá, 30 de março de 2041

Há quase um século, Fernando de Azevedo avisava: 

O que é bom para os Estados Unidos pode não ser bom para nós”. 

No Brasil, o “nortear” (aquilo que vinha do Norte) sempre fora regra nas iniciativas de política educacional Nos idos de vinte, novas modas provindas do Norte, injetavam plataformas digitais em práticas medievais., num “desnorte” total. 

As “orientações” (aquilo que vinha do Oriente) prevalecentes nos projetos ditos inovadores eram de natureza neocolonial. Seria necessário “desorientar”, talvez mesmo “suliar”.

As palavras produzem e reproduzem cultura, mas ouso discordar parcialmente da crítica feita pelo Fernando, perante a grata surpresa de uma exceção. Um americano de nome Khan escreveu um livro, em que nos falava de uma “educação reinventada” e fazia as mesmas denúncias do Fernando, do Lauro e de outros ilustres e saudosos educadores brasileiros. Eis o que Salman Khan dizia na sua obra “Um mundo, uma escola”:

“O velho sistema está fracassando e precisa ser repensado. A educação formal tem de mudar. A lição tradicional age contra os objetivos da educação pública. A aula acaba por se revelar um meio ineficiente de ensinar e aprender. 

A minha ideia de educação nunca foi a de que ela estaria completa com uma criança assistindo a vídeos no computador e resolvendo exercícios. Muito pelo contrário. Sempre sonhei em ser mais do que um recurso online. 

Sentíamos que estávamos em um ponto da história em que a educação podia ser repensada. Mas se alguns indicavam os vídeos a seus alunos como uma ferramenta suplementar, outros os usavam para repensar sua metodologia. 

E o que acontecia nas escolas brasileiras? Nos idos de vinte, os vídeos do Khan eram usados como ele propunha, para acabar com as aulas? 

Não! Eram considerados “videoaulas”, que não serviam para “reinventar a escola”, como o Khan desejava. Uma revista publicou fotos de crianças de uma favela de São Paulo, enfileiradas em sala de aula, exibindo, sorridentes, os seus laptops individuais. Por que se insistia no uso de plataformas digitais de ensinagem e em dotar cada aluno com um laptop? Para gerar monstrinhos adoradores de tela, na mera substituição do livro didático pelo computador? 

No seu livro, Khan convidava-nos a acabar com a escola de sala de aula, turma, série, prova, apelava à humanização do ato de aprender. Porém, sistemas educacionais nas mãos de burocratas exercendo seus podres poderes impunham às escolas uma introdução acrítica de novas tecnologias. 

Talvez afetados pelos vícios de que padeciam os seus “superiores”, havia professores que adotavam os vídeos do Khan nas suas salas de aula, usando-os como complemento da ensinagem, perenizando as práticas que Salman Khan criticava. Aqueles que se reclamavam de o ter como referência apenas “otimizaram o modelo prussiano” de escola – pior a emenda do que o soneto – Ao invés de se apoiar projetos efetivamente inovadores, investia-se verbas faraónicas no enfeitar de uma escola que continuava “prussiana”

Houve um tempo em que as escolas europeias foram invadidas pelas tecnologias digitais de informação e comunicação. Nos idos de vinte, dessa invasão restava apenas lixo digital. No Brasil, a tentação da disseminação em escala e de mostrar efeitos de curto prazo provocavam a mesma cegueira branca naqueles que detinham os recursos e o poder de decidir. Encontrei centenas de laptops entre as teias de aranha e o pó de velhos armários. Nunca tinham sido utilizados. 

Durante décadas, o poder público desperdiçara recursos e fomentara a reprodução da mesmice em versão digital.

 

Por: José Pacheco