Gaia, 3 de abril de 2041

O termo hebraico Pesach está na origem da palavra Páscoa e significa “passagem”. Simbolicamente, Páscoa é oportunidade para refletir sobre vida ressignificada. A Páscoa da aprendizagem começou a ser celebrada há vinte anos, em pleno pico da pandemia. A Páscoa de 2021 foi um anúncio de ressurreição, o início de libertação do autoritarismo, para celebrar o amor e a vida.

Na Páscoa de 2021, a minha amiga Carla ofereceu-me um documento histórico. Nele era descrita a perseguição dos cristãos-novos que ousavam celebrar a “Pesach”.

Em 1506, já não havia judaísmo em Portugal. Contudo, um grupo de judeus cristãos-novos foi denunciado em abril de 1506, por realizar um “Seder de Pessach” clandestino. Aquele dia fatídico era também a primeira noite de Pessach, data que por acaso coincidiu com a Páscoa dos cristãos.

A cerimônia foi interrompida por religiosos fanáticos. Pessoas foram presas, enquanto a multidão, aos gritos, pedia que fossem queimados vivos por heresia.

A peste, que grassava em Lisboa, era uma situação propícia para o ódio e para o fanatismo religioso. Padres lideraram a turba e atuaram como verdadeiros carrascos.

A massa popular, sedenta de sangue, capturou, perseguiu e arrancou os cristãos-novos de suas casas, levando-os para as fogueiras onde seriam queimados vivos. As casas e os pertences das vítimas foram saqueados. Crianças e bebês foram jogados pelas janelas e contra as paredes. Por três dias, Lisboa foi palco de um massacre. Calcula-se que mais de dois mil judeus foram assassinados no massacre da Páscoa de 1506.

Cinco séculos decorridos, as perseguições eram menos violentas, as ameaças mais suaves, mas situações análogas se repetiam. Negacionistas recuperavam velhas crenças, fundamentalistas impunham tenebrosas práticas. Se fosse permitido queimar vivos seres humanos dissidentes, certamente o fariam.

Aproveitando marés de ignorância e despeito, os “fundamentalistas” do dito “ensino tradicional” retomaram as tentativas de assassinar sonhos. Distópica e despoticamente, .se atiram com inquisitorial fúria contra o que não conseguiam entender.

A educação que se fazia no século XVI pouco diferia daquela que sofríamos no século XXI. Nos idos de vinte, um “novo normal” consistiria em aceitar diferenças, cultivar o respeito pela lei, mas o poder público obrigava as escolas a desrespeitá-la.

“Um homem faz o que deve fazer – apesar das consequências pessoais, apesar dos obstáculos, perigos e pressões – e é essa a base de toda a moralidade humana”, Kennedy dizia. E o sistema de ensinagem foi interpelado por professores conscientes do genocídio educacional causado pelo instrucionismo. Mas, quem ousava questionar era excluído, perseguido. Não restava alternativa. Se a administração educacional ostracizava propostas fundamentadas na lei, os professores passaram a rejeitar imposições emanadas da administração, porque, paradoxalmente, os impediam de cumprir a lei.

Na Páscoa do isolamento social, centenas de educadores informaram diretores, gestores e administradores de que não iriam acatar regulamentos instrucionistas. Aquilo que a administração poderia fazer seria guardar tais normativos num museu da pedagogia, ou adequar o seu quadro normativo à educação do século XXI.

No exercício de fraterna desobediência, a amorosidade despontava e a coragem renascia, erradicando negacionismos e fundamentalismos pedagógicos. A Adriane ousava dizer “BASTA!” E o Brandão, nas suas crônicas, escrevia:

“Parece que a reação já começou com a desobediência civil.

Por: José Pacheco