Aguiar da Beira, 7 de abril de 2041

O Miro percorreu a via-sacra do instrucionismo até chegar àquela escola, por recomendação de uma técnica de serviço social e de uma psicóloga. Passara pelo ensino especial e por outros padecimentos. Um professor aproximou-se e propôs-lhe que escrevesse as suas primeiras impressões da nova escola. 

“Não sei, não sou capaz, não faço!”

O professor insistiu com jeitinho. Mas… 

“Mas eu não sou obrigado a fazer. Você não manda em mim. Você não é meu pai!” 

O professor era teimoso, mas logo ouviu uma sugestão: 

“Ponha-me lá fora. Na outra escola, quando fazia besteira, punham-me lá fora. Marque-me uma falta!” 

O Miro não sabia que só estava carente de firmeza e carinho. O pai, há muito tempo, abandonara a família. A mãe “já não tinha mão nele e “que nem pensasse tocar-lhe”. Professores, a julgar pelo condicionamento que nele se tinha operado, poucos teria encontrado pelo caminho. 

O Miro tinha passado sete anos sozinho em casa e outros tantos na escola, e deixara de acreditar ser possível aprender: 

“Você sabe que, na outra escola, eu só tinha aulas de educação física?”

À quarta tentativa de persuasão, quando lhe pediram que fizesse algo de que ainda se lembrasse, o Miro pediu-lhe que o dispensassem da tortura da escrita e lhe “ditassem umas contas, mas só de dois números”, pois apenas se recordava (e mal) das contas de somar e de diminuir. 

“Eu sou assim. No hospital, a psicólica até disse à minha mãe que eu sou atrasado da cabeça p´raí uns cinco anos”. 

Nos idos de vinte, não havia semana em que não recebesse mensagens de esperança, ou de desespero, de professores da nova escola do Miro. Resistiam a “ser como todos os outros” mas, sendo “utópicos”, eram depreciados, caluniados, perseguidos, ou ignorados, remetidos para uma solidão compulsiva, em escolas habitadas por sombras de alunos e de professores. 

Quando rompiam o cerco da solidão, deparavam com obstáculos de que, um dia, talvez vos fale. E o que fizeram esses “utópicos”, que merecesse hostilidade? Por abril de 2021, entregaram documentos fundadores de comunidades de aprendizagem aos órgãos de direção, gestão e administração, acompanhados de um pedido de diálogo. 

Aguardaram a marcação de encontros feitos de mútua disponibilidade e colaboração. Quase sempre, o silencio dos “superiores” foi a resposta, o que não impediu que o projeto continuasse a ser desenvolvido.  

A partir do momento em que se iniciou o processo de transformação, foram adotadas práticas coerentes com a lei e a ciência. Os normativos das secretarias deixaram de fazer sentido, pois contrariavam o disposto na lei e eram desprovidos de fundamentação científica. As novas práticas eram caraterizadas por uma gestão autônoma e flexível do currículo, que dispensavam, por exemplo, a formação de turmas, ou o cumprimento de um horário-padrão.

No decurso do primeiro ano de desenvolvimento do projeto, deveria ser negociado um Termo de Autonomia, tendo por referência uma organização social autónoma, onde se praticaria uma gestão verdadeiramente democrática. 

Visava-se materializar os princípios fundadores da estrutura organizacional, refletir sobre espaços e tempos de aprendizagem, encontrar modos de produção de conhecimento, rever processos de avaliação. 

O projeto seria culturalmente reconfigurado com a participação da comunidade. Apresentando as suas demandas e consciente de que a sua participação era plena, a comunidade se apropriava de fazeres pedagógicos (e antropogógicos), contextualizando-os na realidade em que estava inserida, modificando-a, transformando-a.

 

Por: José Pacheco