Paripueira, 15 de fevereiro de 2041

Foi Sartre quem disse haver dois tipos de pessoas que diziam a verdade: as crianças e os loucos. E o Rubem avisava que, num mundo ao contrário, os loucos vão na direção correta, no certo sentido. Ainda hoje, evidentemente, o que é evidente… mente. Nos idos de vinte, os verdadeiros loucos andavam à solta, a loucura normal internava os considerados loucos em hospícios e sequestrava crianças em salas de aula.

Vai para um século, uma Nise, que um tal Carl Jung admirava e desejava conhecer, afirmava a possibilidade de uma escola na qual os aprendizes aprendessem a lidar com um conhecimento mutante, na busca da integração das diversas dimensões do humano “para garantir condições de se atribuir novos sentidos à existência e atender a necessidade do engajamento do sujeito na construção do futuro”.

Amados netos, eu ia dizer que, se fosse viva, Nise faria hoje 136 anos. Erraria no pressuposto, pois Nise está viva, bem presente no quotidiano dos anos quarenta. Só os não-loucos não a veem.

Nascida em Maceió, cursou a faculdade de medicina na Bahia, e no Rio de Janeiro se tornou psiquiatra. Por não aceitar as formas de tratamentos psiquiátricos em uso na época, como o eletrochoque, a lobotomia, o coma insulínico, Nise enveredou pela prática da terapia ocupacional. Atividades como pintura e modelagem se tornaram meios de acesso ao mundo interno dos pacientes.

“A busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida”, como nos dizia Einstein. E as pinturas dos considerados loucos, nos quais Nise reconheceu genialidade, deram origem a um belo museu. Da tão abundante e de tão elevada qualidade, da produção dos ateliês nasceu o Museu de Imagens do Inconsciente.

Introdutora da psicologia junguiana no Brasil, Nise foi presa e afastada do serviço público durante a ditadura Vargas. Após a anistia, fundou a Casa das Palmeiras, a primeira clínica brasileira destinada ao tratamento psiquiátrico em regime de externato.

A loucura benévola dos habitantes do Engenho de Dentro em nada se comparava à loucura daqueles que, fora dos hospícios, insistiam em manter um sistema de ensino gerador de ignorância e infelicidade. As escolas poderiam constituir-se em espaços de cultura, lugares onde saberes eruditos se casariam com os saberes populares, onde a transformação aconteceria na partilha do conhecimento produzido, sem necessidade de entrar num prédio de escola, no horário-padrão de aula, ou de ter “falta” por chegar atrasado. Sem necessidade de departamentos de “transporte escolar” sorvedouros de recursos (administrativos, motoristas, manutenção, combustível… máfias), que forçavam as crianças a acordar de madrugada e a penar longas viagens, para ouvir auleiros papagueando conteúdo.

Longe vai o tempo dessa louca velha escola, que cerceava a salutar criatividade da infância e provocava a desertificação das comunidades. Nise foi inspiração para os educadores que, nos idos de vinte, por todo o Brasil, ergueram protótipos de comunidade de aprendizagem. Educadores que optaram por práticas de eco sustentabilidade, de estímulo ao espírito inventivo e da criação de soluções novas, baseadas no princípio ético que nos diz que tudo o que for inovado o deva ser para benefício coletivo.

Há vinte anos, chegava o tempo de, à semelhança de Jung, o Brasil encontrar Nise. Que, no lugar etéreo onde ascendeu a possamos reencontrar e Nise possa acolher nova homenagem daqueles que, em tempos sombrios, fizeram despontar a claridade que pôs fim à loucura de velhos “novos normais”.

Por: José Pacheco