São Gonçalo, 16 de fevereiro de 2041

No fevereiro de há vinte anos, quando se aproximava a semana do Carnaval, Paes (era o prefeito do Rio) proibiu as festas e os desfiles, dirigindo-se aos cariocas nestes termos: “não sejam otários”. Tal e qual!

Essa expressão traduzia na perfeição a dramática situação vivida no Rio. No pico da pandemia, multidões se reuniam em festas, os bares estavam lotados de criaturas sem máscara de proteção, as praias eram lugares de grandes aglomerações e… as crianças “voltavam às aulas”.

Interesses de natureza econômica – de escolas particulares, como de escolas de samba – prevaleciam num cenário de catástrofe. A “hecatombe escolar” (título de um livro da década de cinquenta) pressagiada por um ilustre pedagogo consumava-se, sendo agravada pelo descuido de significativa parcela da população, pela corrupção dos políticos, pela ambição de empresários. 

A contaminação ocorrida em escolas confirmava a irresponsabilidade do “retorno às aulas” sem vacina para todos. Os ditos “protocolos de segurança”, por mais rigorosos que fossem, não impediam a circulação do vírus. No “novo normal”, a vacinação urgente e necessária era adiada pela incúria de desgovernantes. Atentas aos perigos, muitas famílias me procuravam, pedindo informação de escolas “alternativas”, pois recusavam o “regresso às aulas” e buscavam escolas “diferentes”. Os trágicos efeitos do corona suscitavam a reflexão sobre um vírus dissimulado, que, desde o século XIX, fizera mais vítimas do que a covid-19: o vírus do instrucionismo (chamemos-lhe “instru-XIX”)

Um ano após o início da pandemia, ainda havia quem defendesse tratamentos sem eficácia comprovada e questionasse a validade de vacinas já aprovadas. A escola instrucionista nem sequer ensinara a lavar as mãos, pelo que urgia encontrar um “antropogógico imunizante”. Mas, um estranho fenômeno saído das catacumbas da incivilidade e que poderia ser considerado absurdo em plena Idade Média se manifestava nos idos de vinte: o negacionismo educacional.

Se no domínio da saúde pública, as contribuições da ciência eram ignoradas, o mesmo acontecia no domínio da educação. Sem qualquer suporte de cientificidade, o instrucionismo sobrevivia sob a égide do autoritarismo, contaminava as escolas com o instru-XIX, até com recurso a meios ilícitos.

Em próximas cartinhas, vos trarei exemplos de irregularidades cometidas pela administração educacional. Por agora, vos deixo com um episódio, que marcou uma viragem na minha relação com “superiores hierárquicos”.

Estávamos em 1976. Ainda não tinha sido publicada uma lei de bases. Sem suporte legal, restava-nos a científica desobediência. Comunicamos ao ministério que o nosso trabalho passaria a ter por referência o paradigma da aprendizagem, e expusemos referências teóricas em que baseávamos a decisão.

Curamo-nos, evitando que as nossas continuassem a ser infetadas pelo instru-XIX. No “novo normal”, o ministério já não podia aplicar os seus regulamentos. Não tardou que um inspetor nos visitasse.

“Voltareis, ainda hoje, para a sala de aula, ou…” – ordenou o inspetor.

“Ou o quê, senhor inspetor? Por que deveremos voltar a dar aula?”

“Porque está na lei” – insistiu o inspetor.

“E por que está na lei? Diga.” – demandamos.

Não respondeu. Apenas fez lembrar que era nosso “superior hierárquico”.

Sugerimos que lesse Montessori, Freinet, Dewey, Steiner… e recordamos-lhe que a ditadura terminara dois anos antes.

O inspetor não mais voltou. Nós nunca mais “demos aula”. “Simples assim”, como diria o Lenine, numa canção.

Por: José Pacheco